Quem e o que: Montadoras chinesas ampliam a presença internacional enquanto enfrentam queda nas vendas internas.
Onde e quando: No mercado interno da China, as vendas de veículos recuaram pelo décimo mês seguido em julho, ao passo que as exportações dispararam para diversos destinos, da Europa ao Sudeste Asiático e ao Brasil.
Dados principais: Em julho, as vendas de automóveis na China caíram 20% em relação ao mesmo mês do ano anterior, totalizando 1,47 milhão de unidades, informou a Associação Chinesa de Veículos de Passageiros. Foi o décimo mês consecutivo de retração. No mesmo período, as exportações cresceram 88%, alcançando 923 mil veículos.
Os números contemplam também marcas estrangeiras que fabricam na China, mas a tendência de queda nas vendas domésticas e de avanço nas exportações é observada entre as montadoras chinesas propriamente ditas.
Foto de arquivo mostra veículos destinados à exportação em um porto de Lianyungang, província de Jiangsu, em 2 de abril de 2020.
Por que: Cui Dongshu, presidente da associação de automóveis de passageiros, atribuiu a fraqueza do mercado interno a preços de combustíveis elevados, que reduziram a procura por carros a gasolina, e à desaceleração persistente nas vendas de sedãs básicos.
Analistas apontam que anos de competição por preço deixaram o maior mercado automotivo do mundo saturado e com capacidade produtiva excedente. Bill Russo, CEO da consultoria Automobility, destacou que fábricas com capacidade excedente, cadeias de suprimentos eficientes e portfólios de produtos mais sofisticados criam um forte incentivo econômico para que as montadoras busquem crescimento fora da China, tornando a internacionalização uma necessidade estratégica.
Primeiro semestre: No acumulado do primeiro semestre, as vendas domésticas chinesas caíram 2,3 milhões de veículos em relação ao mesmo período do ano anterior, uma queda de 20% — volume equivalente ao total de registros de carros novos no Japão no mesmo intervalo. As exportações subiram 71% no primeiro semestre.
A analista do HSBC Yuqian Ding avaliou que a demanda interna pode se estabilizar e começar a recuperar entre o fim de agosto e setembro, com o lançamento de novos modelos, mas uma recuperação rápida em formato de V é improvável.
Impacto no Brasil: A importação de veículos chineses pelo Brasil mais do que dobrou nos sete primeiros meses de 2026. Os embarques da China ao mercado brasileiro subiram 105,4% na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Até julho, o Brasil importou 344,1 mil autoveículos, volume 25,7% superior ao registrado nos primeiros sete meses de 2025; mais de 180 mil desses veículos vieram da China, o que corresponde a 52,4% das importações no período.
Sete novas marcas chinesas confirmaram planos de chegar ao Brasil até 2028, incluindo quatro ligadas à Chery International, a Dongfeng (que atuará como DFM), e a divisão de luxo IM da MG. Luxeed e Freelander devem desembarcar sob a bandeira Exeed no ano seguinte. O grupo ligado à Chery projeta ter mais de 150 lojas e vender mais de 10 mil carros por mês em 2026, com meta de superar 1 mil lojas e 500 mil veículos vendidos ao ano até 2031.
Exemplo de ajuste estratégico: A BYD registrou queda de 35% nas vendas domésticas nos primeiros sete meses do ano, mas aumentou as vendas externas em 79% no mesmo período. Em 2026, Brasil e Reino Unido surgiram como os maiores mercados individuais da BYD fora da China.
Desde 2023, a China se tornou a maior exportadora mundial de veículos, posição antes dominada pelo Japão. Segundo Russo, enquanto a ascensão japonesa se apoiou em eficiência, qualidade e economia de combustível, a vantagem atual chinesa é mais ampla, abrangendo eletrificação, baterias, software, recursos inteligentes, escala da cadeia de suprimentos e desenvolvimento acelerado de produtos — fatores que podem tornar a globalização automotiva chinesa mais disruptiva.
Fonte: G1


