Panorama do endividamento na Argentina
Relatórios do Banco Central argentino e de consultorias indicam que mais de 20 milhões de pessoas no país possuem algum tipo de dívida e aproximadamente 6 milhões estão em mora, com pagamentos atrasados ou em situação de inadimplência. Com uma população de pouco mais de 46 milhões de habitantes, isso equivale a cerca de um em cada três argentinos enfrentando dificuldades para quitar compromissos financeiros, segundo a consultoria Analytica.
O aumento do número de devedores levou a uma mobilização pública: em 20 de agosto houve, na Praça de Maio, em Buenos Aires, a primeira marcha de cidadãos endividados. Participantes pediram mecanismos de refinanciamento e criticaram a ausência de intervenção do governo do presidente Javier Milei, que tem tratado o problema como uma relação entre entidades privadas.
Depoimentos pessoais
Eliana Yaynes e Iván Venencio, entrevistados por uma emissora de rádio, relataram dívidas acumuladas com bancos, carteiras digitais, lojas e familiares. Venencio disse que sua história mudou a partir de 9 de fevereiro de 2025, quando despesas imprevistas — inclusive passagens após o falecimento do sogro — e perdas subsequentes de renda o levaram a contrair vários empréstimos. O casal atualmente soma dívidas em diversos cartões e instituições: Venencio mencionou saldos na ordem de 10 milhões de pesos em cada um de seus cartões e outras quantias em cartões da esposa.
Yaynes relatou perda gradual de renda e aumento de custos, uso recorrente de parcelamentos e dependência de carteiras digitais para despesas básicas. Em janeiro ela recebeu diagnóstico de câncer de mama, apontando que a família estava sem plano de saúde após atrasos nos pagamentos.
Razões e consequências do endividamento
Especialistas citados explicam que o problema central não é apenas o número de pessoas com algum débito, mas os que estão em atraso por mais de 90 dias. Hernán Letcher, diretor do Centro de Economia Política Argentina (Cepa), afirma que cerca de 55% dos quase seis milhões em mora — ou cerca de 3,5 milhões de pessoas — possuem dívidas consideradas tecnicamente irrecuperáveis.
Letcher aponta que boa parte dos atrasos em cartões provêm de compras essenciais, como alimentos, e relaciona a deterioração à queda real da renda das famílias enquanto tarifas e custos básicos subiram muito mais do que os salários.
Fintechs, juros e reciclagem da dívida
O crescimento de carteiras digitais e fintechs, ampliado durante a pandemia, facilitou o acesso a crédito para trabalhadores informais, mas também elevou os níveis de inadimplência. A facilidade de concessão de empréstimos por meio de aplicativos permite saques rápidos, mas com custos financeiros que, segundo Letcher, podem passar de um Custo Efetivo Total de 180% em bancos para até 1.500% em alguns casos de fintechs.
Claudio Caprarulo, da Analytica, afirmou que bancos que emprestam mais barato praticam taxa nominal anual em torno de 70%, enquanto a inflação projetada para os próximos 12 meses gira em torno de 30%. Já o Ministério da Economia, questionado sobre taxas que variam entre 400% e 700% em alguns serviços financeiros digitais, admitiu que tais valores são abusivos e que atualmente nada impede a cobrança, descrevendo o tema como uma questão entre entes privados.
A combinação de acesso facilitado a crédito, aumento das tarifas e salários defasados tem levado famílias ao refinanciamento constante e à busca por alternativas cada vez mais onerosas, incluindo empréstimos informais com cobrança violenta em alguns casos, segundo autoridades provinciais.
Movimentos e propostas
Grupos de endividados organizados e sindicatos participaram da manifestação em defesa de medidas como a declaração de emergência de crédito, que reconheça oficialmente a crise e permita ações como a regulamentação de juros. Projetos de lei tramitam no Congresso argentino, mas líderes de movimentos têm baixa expectativa de resposta por parte do Executivo.
Fonte: G1


