Investigação dos EUA e origem do Pix
O sistema de pagamentos instantâneos Pix, desenvolvido pelo Banco Central do Brasil, voltou ao centro de uma disputa internacional após a conclusão, nesta semana, de uma investigação comercial dos Estados Unidos que aponta prejuízo a empresas americanas concorrentes. A apuração, iniciada em julho do ano anterior com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, acusa o Brasil de favorecer o Pix por meio de políticas que, segundo Washington, tornam o ambiente menos competitivo para provedores dos EUA.
O relatório norte-americano afirma que o Banco Central atuou simultaneamente como regulador e como operador da infraestrutura do Pix, o que teria criado um conflito de interesses. Entre as práticas citadas estão exigências para que instituições financeiras com mais de 500 mil contas utilizem o Pix, a obrigatoriedade de exibição do Pix na tela principal dos aplicativos participantes com destaque equivalente ou superior a outras funções de pagamento, e a oferta do serviço sem cobrança de tarifas aos clientes.
Como resultado da investigação, o governo dos EUA propôs tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, medida que ainda será negociada entre os dois países até o prazo de 15 de julho. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) contestou as conclusões, afirmando que elas se basearam em informações incompletas e que o Pix é uma infraestrutura de pagamento que favorece a competição e a inclusão financeira.
Reações políticas no Brasil
No Brasil, a disputa motivou manifestações públicas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva exibiu um cartaz em evento em Goiás ressaltando a origem nacional do Pix e criticou a decisão americana de aumentar tarifas sobre produtos brasileiros, sugerindo que os EUA poderiam adotar o sistema. Em evento em Minas Gerais, o senador Flávio Bolsonaro também reafirmou a paternidade brasileira da ferramenta, atribuída em seu discurso ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, e negou que o meio de pagamento esteja em risco.
Como o Pix foi criado
O Pix surgiu a partir de estudos e iniciativas do próprio Banco Central. A primeira referência a soluções para pagamentos em tempo real no âmbito do sistema de pagamentos brasileiro consta de 2014. O desenvolvimento prático começou em maio de 2018, com a publicação da portaria 97.909 que instituiu um grupo de trabalho para construir um ecossistema de pagamentos instantâneos competitivo, eficiente, seguro e inclusivo. O GT-PI recebeu contribuições de mais de 130 participantes e, em dezembro de 2018, o Banco Central estabeleceu requisitos fundamentais para o sistema.
A infraestrutura tecnológica passou a ser construída em outubro de 2019. A marca Pix foi divulgada em fevereiro de 2020 e, no mês seguinte ao início do cadastramento de chaves para usuários, o sistema entrou em operação restrita em 3 de novembro de 2020 e, em 16 de novembro, começou a funcionar plenamente. O Pix foi lançado formalmente em novembro de 2020, no governo do então presidente Jair Bolsonaro.
Adesão e números
O Pix é usado por contas correntes, poupança e pré-pagas, e permite transferências em segundos, a qualquer hora do dia. Segundo dados do Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas físicas — cerca de 80% da população brasileira — já realizaram transferências via Pix. Até outubro do ano passado, mais de R$ 3 trilhões haviam sido movimentados pelo sistema. Em janeiro deste ano foram registradas mais de 7 bilhões de transações, e o recorde diário ocorreu em 12 de dezembro de 2025, com 313 milhões de operações em um único dia.
Impacto e avaliações
Especialistas e analistas internacionais destacaram que o Pix estimulou o crescimento de bancos digitais e fintechs no país, impulsionando inovação e servindo de referência para outras nações. O economista Paul Krugman, em avaliação publicada no ano passado, elogiou a rapidez e os baixos custos de transação do Pix e afirmou que o modelo brasileiro poderia ser um exemplo global. Pesquisadores também observaram que o Pix desafiou empresas tecnológicas estrangeiras ao oferecer um serviço competitivo no mercado doméstico.
Representantes de organizações que acompanham tecnologia e direitos humanos disseram que a reação dos EUA pode refletir preocupações com competição tecnológica e controle sobre inovações não geridas por empresas americanas.
Transmissão: Record
Fonte: G1


