Executivos afirmam que IA reduzirá horas, mas funcionários relatam semanas de até 90 horas
Líderes de grandes empresas de tecnologia têm defendido que a inteligência artificial tornará o trabalho humano mais eficiente e permitirá jornadas menores. No entanto, relatos de empregados dessas mesmas organizações descrevem rotina extenuante, com períodos de trabalho que podem chegar a 90 horas em sete dias.
O relato disse ainda que, no seu tempo na OpenAI, a carga chegava a pelo menos 70 horas semanais — valor superior ao observado em empregos anteriores na área de tecnologia. Após sair da organização, o profissional informou trabalhar em outra startup de IA com jornada aproximada de 50 a 60 horas por semana, exceto durante sprints, quando a intensidade aumenta.
O termo “sprint” refere-se ao intervalo de trabalho concentrado para lançar recursos ou produtos. Funcionários da OpenAI e da Anthropic relataram à BBC que esses sprints podem se estender por semanas e, em alguns momentos, superar 90 horas em um único período de sete dias. As empresas consultadas não responderam aos pedidos de comentário da reportagem.
A Anthropic divulga que seu assistente Claude é capaz de operar por sete horas seguidas, o que a empresa compara a um dia de trabalho. Do lado da Meta, seu fundador Mark Zuckerberg afirmou publicamente que a IA está transformando a forma de trabalhar e pode aumentar a produtividade a ponto de menos pessoas executarem o que antes demandava equipes maiores. A Meta, por sua vez, promoveu cortes que atingiram cerca de um em cada dez funcionários.
Dario Amodei, diretor executivo da Anthropic, alertou sobre possíveis perdas de postos de trabalho à medida que ferramentas de IA ganham produtividade. Ainda assim, técnicos que desenvolvem e utilizam essas tecnologias relatam aumento da carga de trabalho.
Um ex-engenheiro do Google, Amin Shali, disse ter deixado a empresa em maio, citando efeitos negativos da dependência crescente de projetos de IA, como necessidade de trabalhar até altas horas para corrigir falhas em funções internas. Após a saída, Shali relatou melhora no sono e na saúde geral.
Pesquisadores também observam a intensificação do ritmo. Um estudo da Universidade da Califórnia em Berkeley acompanhou centenas de empregados de uma empresa de tecnologia por oito meses enquanto utilizavam ferramentas de IA e concluiu que os trabalhadores aceleraram o ritmo, passaram a assumir tarefas mais variadas e estenderam suas jornadas ao longo do dia. Neil Thompson, especialista em inovação do MIT, afirmou que eventuais ganhos de tempo com IA tendem a ser consumidos pela implementação, ajustes e verificação do funcionamento das ferramentas, além de gerar novas tarefas.
As diferenças legais entre países foram lembradas: nos Estados Unidos não há limite legal para horas trabalhadas por maiores de 16 anos, enquanto Reino Unido e União Europeia estabelecem um teto de 48 horas semanais, incluindo horas extras.
Fonte: G1


