Um post nas redes sociais que ironiza a opção do técnico Carlo Ancelotti por não escalar o atacante Endrick viralizou ao explorar uma ambiguidade da língua portuguesa. A publicação brinca com a colocação do pronome “ele” na frase “Ancelotti disse a Endrick que ele será titular contra o Haiti”, dando margem a interpretações opostas sobre quem seria o titular.
O contexto é a pressão de parte da torcida brasileira para que Endrick seja titular, após o empate na estreia contra o Marrocos na Copa do Mundo. A peça compartilhada nas redes aproveita justamente a indeterminação do pronome para provocar: em uma leitura literal e ambígua, o “ele” poderia remeter a Ancelotti, o que gera a piada de que o treinador integraria o trio ofensivo ao lado de Vinícius Júnior e Raphinha.
Especialistas em língua portuguesa consultados explicam que o problema é sintático. Thiago Braga, autor do livro Língua Portuguesa do Sistema de Ensino pH, observa que o “ele” é um elemento anafórico, isto é, depende de um antecedente anterior para ter sentido. No exemplo citado, ambos os nomes possíveis — Ancelotti e Endrick — são masculinos e singulares, o que não impõe uma referência única ao pronome.
Braga afirma que nada na estrutura da frase obriga a escolha de um antecedente específico, o que deixa a referência indeterminada. Em uma leitura pragmática, o pronome tende a remeter a Endrick, especialmente pela proximidade entre o pronome e o nome, mas isso não elimina a ambiguidade que torna a frase passível de humor nas redes sociais.
Para eliminar a dúvida e aumentar a clareza, o professor recomenda reformular a oração, por exemplo: “Ancelotti disse a Endrick que o atacante será titular.” Essa versão explicita o antecedente e evita a interpretação dupla que originou a viralização.
A repercussão do post nas redes evidencia como sutilezas de colocação pronominal podem ser usadas para efeito cômico, sobretudo em um cenário de debate público sobre escalações e escolhas técnicas.
Fonte: G1


