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segunda-feira, junho 22, 2026

Keynes previu jornada de 15 horas semanais; avanço tecnológico e consumo explicam por que previsão não se concretizou

Economista britânico previa horas de trabalho muito menores com o avanço da produtividade

O economista britânico John Maynard Keynes (1883-1945) previu, em 1930, que o progresso técnico tornaria possível jornadas de trabalho de cerca de três horas diárias — ou 15 horas por semana — e sociedades muito mais ricas do que as de sua época. A previsão foi feita no ensaio Possibilidades Econômicas para Nossos Netos, apresentado originalmente em 1928, ampliado em palestra em Madri, em junho de 1930, e publicado em outubro daquele ano, no ambiente da Grande Depressão.

Keynes, então professor da Universidade de Cambridge, argumentou que a combinação entre acumulação de capital, juros compostos e avanços científicos desencadearia um crescimento sem precedentes desde a Revolução Industrial, permitindo produzir mais com menos trabalho humano. Em sua visão, essa transformação geraria desemprego tecnológico no curto prazo, mas abriria espaço para uma sociedade na qual as necessidades materiais básicas fossem amplamente atendidas e o tempo livre ocupasse papel central na vida humana.

Especialistas consultados destacam que o ensaio é um clássico do pensamento keynesiano. A diretora-adjunta do DIEESE, Patrícia Pelatieri, lembra o contexto histórico da publicação e enfatiza que Keynes via no aumento da capacidade produtiva a possibilidade de reduzir a jornada de trabalho sem perder o padrão de vida.

O sociólogo Paulo Niccoli Ramirez, professor em instituições paulistas, aponta que Keynes confrontou a ideia de que mais trabalho necessariamente gera mais riqueza, ao reconhecer o papel transformador da tecnologia. Para Ramirez, o lazer teria também função econômica, ao criar tempo para consumo e, assim, movimentar a economia.

Por que a previsão não se cumpriu? Pesquisadores citam várias razões ligadas ao próprio funcionamento do capitalismo contemporâneo. O cientista político Christian Lohbauer, do grupo de pesquisa da USP, considera que Keynes acertou ao prever ganhos de produtividade, mas não previu a expansão do consumo. Segundo ele, as pessoas passaram a desejar mais bens e serviços — e para satisfazer esses desejos são necessárias mais horas de trabalho.

Pelatieri acrescenta que Keynes não antecipou a capacidade do sistema capitalista de criar novas necessidades sociais e de consumo, transformando itens como celulares e internet em bens considerados essenciais. Além disso, observa ela, os ganhos de produtividade foram distribuídos de forma desigual, convertendo-se em lucros e rendimentos de capital: em 2024, foram criados 204 novos bilionários, ilustra a economista.

Outros fatores mencionados por especialistas incluem a apropriação concentrada dos ganhos técnicos por grandes empresas, a financeirização da economia, a cultura consumista estimulada pela publicidade e pelo crédito, a expansão do setor de serviços e do trabalho intelectual, e a intensificação da competição global. Também se destaca o uso de tecnologias digitais para monitoramento e controle do trabalho e a perda de direitos trabalhistas em alguns setores.

O jurista e ex-desembargador do trabalho Brasilino Santos Ramos ressalta a trajetória intelectual de Keynes: membro do antigo Partido Liberal, defensor do mercado e da intervenção estatal reguladora, ele formulou princípios que influenciaram políticas públicas e o entendimento moderno da macroeconomia, incluindo a ideia de que o Estado deve atuar para buscar o pleno emprego.

Segundo Ramos, o ensaio não era apenas uma previsão técnica, mas uma reflexão sobre as consequências sociais e morais da abundância: a possibilidade de dedicar mais tempo à educação, cultura e convívio social caso a luta pela subsistência perdesse centralidade. O que não ocorreu, apontam os especialistas, foi a conversão generalizada dos ganhos de produtividade em redução drástica das horas de trabalho.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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