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27/02/1833 — Do “vinho do diabo” aos best-sellers devocionais: o café como metáfora religiosa

Lead: O café, presente na cultura brasileira como símbolo de encontro e pausa, virou metáfora recorrente em livros devocionais e de autoajuda religiosa após o sucesso do título Café com Deus Pai, de Junior Rostirola. Ao mesmo tempo, a bebida carrega uma história de controvérsias religiosas que inclui proibições e debates que remontam à sua origem e à difusão entre culturas distintas.

O fenômeno editorial

O sucesso de Café com Deus Pai, cuja primeira edição saiu em 2023 e colocou o pastor, teólogo e autor Junior Rostirola como o brasileiro mais vendido no ano, inspirou uma série de obras com variações no título: Café com Nossa Senhora, Café com Jesus, Café com os Santos, Café com as Mulheres da Bíblia, Café com a Virgem Maria e até Café com Exu. A expressão “café” funciona como metáfora para momentos de intimidade, conversa e pausa na rotina, segundo Rostirola, que explica ter usado a imagem para representar um espaço de encontro com Deus.

Origens e difusão histórica

Especialistas citados no levantamento relatam registros do consumo do café desde a segunda metade do século 6, na Etiópia, com relatos lendários sobre um pastor de cabras que percebeu efeitos da planta nos animais. A torrefação teria se popularizado por volta do século 14, quando monges da Igreja Ortodoxa Etíope teriam percebido o aroma ao torrar os frutos. No século 15, a bebida passou a ser usada por sufis no Iêmen para manter a vigília nas orações noturnas; os árabes passaram a chamá-la de “qahwah” — termo que deu origem à palavra “café” e que significava, à época, algo próximo a “vinho”.

O café chegou à Turquia, com registros desde 1453, e ao Ocidente por volta de 1570, via Veneza. A associação com o mundo árabe e islâmico fez com que setores do cristianismo europeu o recebessem com desconfiança, rotulando-o por vezes como “vinho do diabo”. A tradição conta que o papa Clemente VIII teria experimentado a bebida e, ao aprová-la, contribuído para dissipar a resistência católica ao consumo de café, abrindo caminho para sua expansão no mundo ocidental no século 17.

Restrições religiosas

Apesar da ampla aceitação cultural, algumas denominações cristãs mantêm restrições ao consumo de café. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (mórmons) proíbe que seus membros bebam café com base em uma revelação escrita por Joseph Smith em 27 de fevereiro de 1833, que afirma: “condena-se o uso de vinho, bebidas fortes, tabaco e bebidas quentes”. A interpretação dessa revelação inclui o café e o chá preto entre as bebidas vedadas.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia não proíbe formalmente o café, mas orienta seus fieles a evitá-lo. A biomédica Lanny Cristina Burlandy Soares, diretora associada do departamento de saúde da denominação para a América do Sul, justifica a orientação por uma visão de cuidado integral com o corpo — entendido como “templo” — e por considerar que a cafeína pode gerar dependência se usada regularmente.

Mercado e simbolismo

Especialistas em marketing literário e autores consultados destacam que o apelo do café nos títulos se deve tanto à familiaridade cultural quanto ao efeito de associação com intimidade e rotina devocional. A jornalista Lilian Cardoso atribui o fenômeno à combinação entre a “sacada do título” e a audiência pré-existente do autor, citando que o livro de Rostirola já vendeu mais de 10 milhões de exemplares. Autores de outras tradições religiosas e de matriz afro-brasileira, como o psicólogo Rubens Oliveira (autor de Café com Exu), e líderes religiosas como a bispa Jeiza Pontes, que lançou Doses de Cura, também têm adotado imagens ligadas ao café para transmitir mensagens espirituais ou de cuidado.

Para representantes adventistas, a metáfora do café em títulos devocionais é compreendida como um recurso comunicativo que aproxima leitores da prática de devoção diária, mesmo que a recomendação oficial da igreja continue a evitar o consumo da bebida.

Fonte original: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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