Tarifas dos EUA alteraram rotas comerciais e elevaram exposição ao mercado chinês
As tarifas de importação aplicadas pelos Estados Unidos tiveram efeito significativo sobre setores brasileiros que não receberam isenções, levando empresas a redirecionar vendas e fornecedores para outros mercados. Ramos como metais, madeira e diversas manufaturas, que haviam estruturado cadeias produtivas em torno do mercado americano, sentiram o impacto, segundo especialistas consultados.
De acordo com Welber Barral, especialista em comércio internacional, metade das exportações brasileiras de café solúvel destinava‑se aos Estados Unidos antes das tarifas. Ele afirma que houve aumento de vendas para mercados alternativos, mas ressalta que a participação americana era bastante elevada. Barral também cita produtos como aço, alumínio e cobre em situação semelhante e observa que setores específicos, como o calçadista, tinham empresas muito dependentes do mercado dos EUA.
Além dos exportadores, importadores foram afetados pelas barreiras comerciais. Grandes corporações — entre elas Coca‑Cola e Tesla — indicaram dificuldades para substituir, de forma imediata e com tarifas competitivas, insumos como café, suco de laranja e metais raros provenientes do Brasil, o que tende a repassar custos ao consumidor norte‑americano.
Especialistas apontam que a perda de confiança acelerou um processo de afastamento comercial. Carlos Frederico Coelho, professor de comércio internacional da PUC‑Rio, afirma que o episódio apressa um “divórcio” ou decoupling que já vinha ocorrendo nas últimas duas décadas, e que o pacote tarifário norte‑americano não iniciou a tendência, mas a intensificou.
Em reação às medidas dos EUA e a anúncios considerados intempestivos, o Brasil intensificou negociações e fechamento de acordos externos. Desde 2025, além do Mercosul, houve avanços em cinco frentes: foram concluídos acordos com a União Europeia, com o EFTA (Noruega, Suíça, Liechtenstein e Islândia) e com Singapura; foram abertas negociações com o Japão; e houve reativação diplomática para tratar de acordos com Emirados Árabes Unidos, Canadá, Índia, Vietnã e Indonésia.
O resultado é uma ampliação da cobertura por acordos comerciais: enquanto até 2024 apenas 12% das exportações brasileiras tinham esse respaldo, a participação subiu para 31%. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) apontam também recordes de exportações para 42 países no ano passado. A Alemanha, por exemplo, consolidou‑se como a quarta maior parceira comercial do Brasil e prevê dobrar o fluxo comercial com o país nos próximos cinco anos.
Barral destaca que as pressões externas favoreceram o avanço de acordos por diversos países, citando também o progresso da Indonésia e iniciativas da União Europeia, como o acordo com a Índia.
Por outro lado, a redução de 6,6% nas importações brasileiras pelos Estados Unidos foi compensada por aumento equivalente nas compras da China e da Argentina, que hoje figuram como primeiro e terceiro principais parceiros do Brasil, respectivamente. Pequim absorve hoje quase um terço das exportações brasileiras.
Carlos Frederico Coelho alerta para o risco dessa concentração: quase 90% das vendas brasileiras à China estão focalizadas em quatro produtos — carnes, minério, soja e petróleo — e, caso a demanda chinesa desacelere, o Brasil teria impacto significativo. Welber Barral concorda quanto ao risco da dependência, mas observa que as trocas com outros países asiáticos, como Índia, Indonésia e Vietnã, também vêm crescendo e podem ampliar a diversificação, sobretudo para commodities agrícolas.
Fonte: G1


