Foto: Fumaça sai do Hotel Intercontinental em Cabul, capital do Afeganistão, durante ataque terrorista em 21 de janeiro de 2018. Mohammad Ismail/Reuters
Um estudo da organização Tech Against Terrorism, apoiada pelo escritório de contraterrorismo das Nações Unidas, aponta que modelos de linguagem podem oferecer instruções úteis a pessoas com intenções violentas e que grupos extremistas estão cada vez mais usando inteligência artificial (IA) não apenas para propaganda, mas também para planejar operações.
Pesquisadores enviaram mais de 2.300 solicitações, baseadas em casos reais de uso por terroristas, a 27 modelos de IA distintos. Em 32% das consultas, os sistemas retornaram informações consideradas utilizáveis. Quando os mesmos pedidos foram reformulados como demandas para pesquisa acadêmica, a taxa de respostas úteis subiu para 42%.
Como ocorre a contaminação dos sistemas
Especialistas citados no relatório explicam que atacantes usam técnicas de “jailbreaking” — tentativas de induzir chatbots a fornecer conteúdo proibido — para contornar as restrições dos modelos. A OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT, descreve esse procedimento como uma tentativa de fazer o modelo revelar informações vetadas.
Além da possibilidade de obter instruções técnicas, pesquisadores observam o risco do caráter conversacional das ferramentas: em vez de encontrar um manual estático, o usuário interage com um sistema que pode atuar como um instrutor passo a passo.
Ampliação do uso operacional
Nos últimos anos, o principal emprego da IA por organizações como o Estado Islâmico e redes afiliadas à Al Qaeda concentrava-se em produzir materiais de propaganda — vídeos, memes, podcasts e desinformação. Contudo, relatos indicam que, sobretudo em 2025, houve aumento de incidentes em que a IA foi usada para planejamento, vigilância, visualização e apoio operacional em ataques e conspirações frustradas. Casos foram registrados em países como Estados Unidos, Canadá, Israel, Finlândia e Áustria.
Pesquisadores também detectaram que grupos organizados fazem uso da tecnologia. Um estudo sobre o uso de drones pelo grupo afiliado à Al-Qaeda Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), no Mali, sugere que a IA auxiliou modificações nessas aeronaves. Analistas da Moonshot, Yuri Neves e Emily Klein, identificaram canais no Telegram dedicados ao compartilhamento de prompts, links para conversas com chatbots e até divisão de custos de assinaturas para acessar serviços pagos.
Especialistas e avaliações
Adam Hadley, diretor da Tech Against Terrorism, afirma que a IA altera a velocidade, a facilidade e o alcance da obtenção de informações, permitindo que indivíduos com menos recursos avancem mais rápido no planejamento. Ainda assim, analistas destacam que muitas informações sobre fabricação de armas e explosivos já eram acessíveis na internet sem o uso de IA; a questão em aberto é se os modelos oferecem conteúdo que não seria obtido de outra forma ou se apenas tornam o processo mais eficiente.
O relatório reforça a necessidade de acompanhamento das interações entre IA e processos de radicalização, já que a tecnologia pode acelerar etapas de validação ideológica e preparação operacional, segundo os especialistas consultados.


