Uma onda de solicitações de autoexclusão em plataformas de apostas online ocorreu nas primeiras semanas da Copa do Mundo, segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda obtidos pela BBC News Brasil. A Plataforma Centralizada de Autoexclusão, criada pelo governo em dezembro de 2025, recebeu 250.129 pedidos entre 15 e 28 de junho, informou a SPA.
Os pedidos processados impedem o uso do CPF do solicitante em sites de apostas autorizados. No período de 15 a 28 de junho, a média foi de 17.866 solicitações por dia. Em comparação, entre 11 e 25 de maio — período anterior ao início do torneio — tinham sido registrados 38.907 pedidos, com média de 2.594 diários. A Secretaria aponta crescimento médio diário de 588% nas duas primeiras semanas da Copa em relação ao período de maio analisado.
Quem, quando e como
A Plataforma Centralizada de Autoexclusão foi lançada em dezembro de 2025 para permitir que um cidadão, com um único comando, bloqueie o acesso a todas as plataformas de apostas autorizadas. A SPA destacou que o aumento dos pedidos decorre da maior exposição do público às apostas durante a competição, da divulgação da ferramenta e da ampliação da conscientização sobre riscos financeiros e emocionais ligados ao jogo.
Mesmo com o recorte de junho abrangendo 14 dias — entre 15 e 28 — contra 15 dias em maio, houve acréscimo absoluto de 211.222 pedidos no intervalo analisado pela SPA.
Motivações e perfil dos pedidos
O levantamento mostra mudança nos motivos informados para a autoexclusão. No período anterior à Copa, os principais motivos foram:
- perda de controle sobre o jogo: 43,56%
- motivo não informado: 16,1%
- dificuldades financeiras: 14,07%
- decisão voluntária: 12,68%
- prevenção contra uso de dados: 12,08%
- recomendação médica: 1,52%
Durante a Copa, a ordem mudou, com a prevenção contra uso irregular de dados pessoais liderando as justificativas (29,5%), seguida por perda de controle (24,13%), decisão voluntária (18,93%), motivo não informado (15,31%), dificuldades financeiras (10,91%) e recomendação médica (1,22%).
A maioria dos pedidos foi por bloqueio sem prazo determinado: 62,13% antes da Copa e 63,53% no recorte durante o torneio.
Reações de entidades e relatos pessoais
Organizações que acompanham impactos das apostas interpretam parte do aumento como resultado de usuários que buscaram proteção preventiva diante da maior exposição às ofertas durante a Copa, enquanto representantes do setor alertam para a necessidade de cautela ao interpretar os números. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) afirmou que os dados devem ser contextualizados com o universo de pessoas que podem usar a plataforma e com apostas em sites ilegais. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) considerou o crescimento como sinal de que a ferramenta vem sendo utilizada pelos apostadores autorizados.
Representantes de grupos de apoio relataram aumento da demanda: o número de salas do grupo Jogadores Anônimos passou de cerca de 30, há sete anos, para mais de 70 atualmente, e o grupo preparou-se para receber mais pessoas nos próximos meses. Lucas Louback, do coletivo Bonde, disse que os dados mostram o alcance das apostas no país e a intensidade da publicidade durante o torneio.
Um depoimento citado na apuração relata o caso de um homem identificado apenas como Bruno, que pediu autoexclusão e disse ter perdido R$ 122 mil em apostas no futebol, o que o levou a se afastar de atividades ligadas ao esporte. Ele está em tratamento desde o fim do ano passado e pediu anonimato.
Contexto do mercado e medidas de publicidade
Segundo o Ministério da Fazenda, o Brasil tem pelo menos 25 milhões de apostadores cadastrados, algo em torno de 10% da população estimada em 210 milhões. A receita bruta das bets autorizadas chegou a R$ 37 bilhões em 2025, e estimativas da consultoria Regulus Partners indicaram que o país se tornou o quinto maior mercado de apostas em 2025.
Em reação à intensa publicidade durante a Copa, o governo federal adotou novas regras para anúncios das casas de aposta, exigindo avisos sobre riscos financeiros e proibição de propaganda que promova apostas com base na “expertise” de comentaristas, especialistas ou influenciadores. Estados e municípios também anunciaram medidas para restringir a publicidade.
A SPA informou que os números completos do torneio ainda serão contabilizados e que também são monitorados os registros de novos usuários que se cadastraram para apostar durante a competição.


