Resumo: Pesquisas recentes e relatos de docentes revelam aumento de agressões contra professores no Brasil, incluindo ameaças de morte, violência física e perseguição nas redes. Levantamentos apontam que 65% dos professores já sofreram algum tipo de agressão no ambiente escolar, enquanto estudo internacional da OCDE coloca o país no topo do ranking de hostilidade a educadores.
Quem, o que, quando e onde
Uma pesquisa do Centro do Professorado Paulista (CPP) com 1.144 professores mostra que 65% dos entrevistados afirmam ter sofrido agressão em sala de aula ou em ambiente ligado à escola. O levantamento indica que as agressões mais frequentes são verbais (71%), seguidas por agressões psicológicas e morais (58%), institucionais (27%) e físicas (19%).
Relatos de casos
Em março de 2023, a professora identificada apenas como Marta, de uma escola municipal na Zona Oeste de São Paulo, relatou ter sido ameaçada de morte pelo pai de um aluno do 1º ano, de 6 anos. Segundo ela, a família responsabilizava a docente pela dificuldade de adaptação e aprendizado do estudante. Marta registrou boletim de ocorrência, foi afastada da unidade onde ocorreu o episódio e completou o ano letivo em outra escola; por receio, não seguiu com representação criminal e passou por acompanhamento médico-psiquiátrico.
Na região de São José dos Campos, a professora Michele Ramos registrou boletim de ocorrência após encontrar uma lâmina de vidro em seu copo de água durante uma aula em escola municipal, caso que reacendeu a discussão pública sobre o tema. A Secretaria de Educação e Cidadania de São José dos Campos foi procurada pela reportagem sem resposta até a publicação.
Em 2024, Pedro, professor de 40 anos em escola municipal na Zona Norte de São Paulo, relatou ter sido agredido com um soco por um aluno com autismo durante atividade sobre o Dia do Orgulho LGBTQIAP+. O docente registrou o episódio junto à direção e recebeu a opção de afastamento por meio de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), mas optou por retornar às atividades.
Outro caso grave envolveu a professora Michelle Bernardes, de uma escola municipal da Zona Leste de São Paulo, que teve o dedo médio da mão direita parcialmente decepado durante uma crise de desregulação de um aluno com deficiência intelectual. A docente passou por duas cirurgias e aguarda início de fisioterapia; ela ressaltou a necessidade de políticas públicas voltadas ao atendimento qualificado de estudantes com deficiência.
Formas e consequências da violência
A psicóloga Renata Paparelli, da PUC-SP, classifica a violência em três dimensões: a “violência da escola” (decorrente de políticas públicas mal adaptadas), a “violência na escola” (conflitos entre alunos, educadores e gestões) e a “violência contra a escola” (depredação e desvalorização institucional). Ela afirma que os docentes atendidos apresentam quadro de burnout, depressão e transtorno do estresse pós-traumático, em função de ameaças e agressões continuadas.
O Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es da UFF (Onve-UFF) identificou, em estudo com mais de 3 mil educadores, que 61% dos professores da educação básica e 55% dos docentes do ensino superior já sofreram perseguição — incluindo censura, exposição nas redes e assédio jurídico.
Impacto nas licenças e medidas adotadas
Dados do Centro do Professorado Paulista mostram que, em 2024, foram concedidas mais de 42 mil licenças por transtornos mentais e comportamentais a professores estatutários da rede estadual de São Paulo (média superior a 115 por dia). Em 2025, até setembro, já haviam sido registradas mais de 25 mil licenças por problemas de saúde mental, segundo a Secretaria de Gestão e Governo Digital do estado.
A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo informou promover iniciativas como o Programa Entre Nós, Comissões de Mediação de Conflitos (CMCs) e formações em parceria com o Instituto Vladimir Herzog. A pasta também afirmou ter reforçado a educação inclusiva com ampliação de professores especializados e apoio à inclusão nas 13 Diretorias Regionais de Educação (DREs), além de aumento de 144% no número de Auxiliares de Vida Escolar (AVEs) desde abril deste ano, totalizando 2.937 profissionais.
Em relação à saúde mental, a Secretaria Municipal de Gestão de São Paulo relatou ter realizado 55 grupos de avaliação entre 2025 e 2026, com 1.043 servidores, e que o Programa de Orientação e Proteção em Saúde Mental dos Servidores (Rede Somos) acolheu 720 servidores e promoveu 2.228 ações no mesmo período.
Debate sobre soluções
Para o CPP, é necessário atualizar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para prever responsabilização de alunos em casos de violência e corresponsabilização dos pais, argumento defendido por Ana Carolina Soares, advogada do centro. Já o presidente interino do sindicato Apeoesp, Roberto Guido, defende que a redução da violência depende de melhores condições de trabalho para educadores e do estreitamento de vínculos entre escola e comunidade, apontando a falta de diálogo como fator que agrava problemas de indisciplina e violência.
Renata Paparelli reiterou que escolas precisam de equipe suficiente, jornada adequada e turmas em número compatível com o trabalho docente para favorecer pactos de não violência com famílias e estudantes, destacando que a precarização das condições de trabalho amplia o afastamento entre educadores e comunidade.
Fonte original: G1


