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terça-feira, julho 28, 2026

Pesquisadora da UFSC faz vaquinha para visto de doutorado sanduíche na Austrália e sofre ataques nas redes

Uma doutoranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) recorreu a uma vaquinha online para pagar parte do processo de visto exigido por uma universidade na Austrália e passou a ser alvo de deboches e ofensas em redes sociais após o caso se tornar tema de um vídeo de uma influenciadora.

Talita Motta Beneli, pesquisadora em ecologia e doutoranda que pesquisa o comportamento alimentar de peixes em recifes, foi aprovada para realizar parte da pesquisa no exterior por meio do Programa Institucional de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE), da Capes. O PDSE cobre benefícios como bolsa mensal, auxílio deslocamento (incluindo passagem aérea), auxílio instalação para os primeiros custos de moradia durante os nove meses de estágio e auxílio seguro-saúde. O edital, porém, deixa explícito que taxas administrativas ou acadêmicas e despesas adicionais não estão incluídas.

A estudante relata que, apesar de ter considerado esses limites financeiros antes de se inscrever, o custo real de itens previstos está defasado: o auxílio para passagem previsto no programa considera cerca de R$ 8 mil, enquanto uma passagem de ida e volta para a região australiana de interesse custa cerca de R$ 11 mil. Além disso, o visto exigido pela universidade anfitriã é o de atividade temporária (subclass 408), que não permite trabalho remunerado complementar — diferente do visto de estudante —, o que apertou ainda mais as contas.

Quando o processo de visto já estava em andamento, a universidade passou a exigir que a emissão fosse feita por uma agência particular parceira, introduzindo uma despesa adicional de R$ 8 mil que não estava prevista no financiamento. O orientador da estudante chegou a solicitar à instituição uma exceção diante da impossibilidade financeira, mas o pedido foi negado.

Com a bolsa que recebe da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc), Talita tem remuneração de R$ 3,5 mil como pesquisadora exclusiva. No país, boa parte dos pesquisadores depende de bolsas de agências de fomento: Capes e CNPq pagam, respectivamente, valores de R$ 2,1 mil para mestrado e R$ 3,1 mil para doutorado. Para pós-doutorado, os patamares citados são R$ 5,5 mil (sênior) e R$ 5,2 mil (júnior). Agências estaduais variam; por exemplo, a Fapesp prevê R$ 3.270 para mestrado e R$ 5.790 para pós-doutorado.

Sem reservas e vendo a possibilidade de perder a oportunidade de concluir parte da pesquisa na Austrália, Talita abriu uma campanha de arrecadação com meta de R$ 8 mil. Ela compartilhou o link em uma rede social fechada — com menos de mil seguidores — com uma influenciadora que a acompanha e que tem milhões de seguidores. Horas depois, a influenciadora publicou um vídeo criticando pessoas que pedem dinheiro online, sem mencionar Talita nominalmente. O conteúdo gerou milhares de comentários e uma onda de ofensas, classificando quem busca financiamento coletivo como preguiçoso ou indolente.

A pesquisadora acabou se identificando nos comentários e passou a esclarecer o contexto: o financiamento do doutorado, a natureza da pesquisa e as limitações das bolsas no Brasil. Dois dias após a repercussão inicial, outros pesquisadores e apoiadores começaram a compreender melhor a situação e a campanha recebeu doações suficientes para atingir a meta, permitindo que Talita pague pelo serviço exigido e prossiga com a etapa na Austrália.

O caso chamou atenção para a precariedade do financiamento à pesquisa no país e para a dependência de bolsas que podem ser reduzidas ou ter pagamentos atrasados. Entidades científicas, entre elas a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), e mais de 35 organizações ligadas à pesquisa emitiram em junho deste ano uma nota cobrando que o pagamento de bolsas deixe de ser tratado como despesa discricionária, por gerar insegurança e risco de interrupção de pesquisas quando há cortes orçamentários.

A pesquisa de Talita busca entender o que diferentes espécies de peixes consomem nos recifes, informação que ajuda a identificar funções específicas no ecossistema e a priorizar ações de conservação, especialmente diante da fragilização de recifes no Brasil. Ela seguirá para a etapa na Austrália agora que a arrecadação cobriu o custo adicional exigido pela universidade.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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