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sexta-feira, agosto 7, 2026

Ferramentas de recrutamento com IA podem prejudicar mulheres de meia-idade, apontam candidatas e especialistas

Mulheres de meia-idade têm relatado dificuldades para conseguir vagas de emprego e atribuem parte do problema ao uso crescente de ferramentas de recrutamento baseadas em inteligência artificial (IA). Profissionais com décadas de experiência afirmam que currículos são descartados ou recebem apenas respostas automáticas, o que tem afetado a autoconfiança e forçado adaptações nos documentos de candidatura.

Stacey Duguid, de 52 anos, que trabalhou por décadas em cargos executivos no setor de moda e também como freelancer, descreve ter passado 16 meses enviando “uma infinidade” de currículos e recebendo poucas respostas úteis. Moradora do norte de Londres, ela decidiu retirar referências explícitas à sua idade e ao tempo total de experiência do currículo, comparando o ajuste a um “botox” aplicado no documento. Stacey acredita que sistemas de triagem por IA reproduzem preconceitos existentes na sociedade e podem penalizar candidatas mais velhas.

A reportagem da BBC ouviu mais de 60 mulheres, entre 40 e 65 anos, de diferentes setores, muitas com décadas de experiência em cargos de liderança. Entre os relatos está o de Koeyli Jaluka, de 49 anos, que após ser demitida passou a se candidatar e enviar 442 currículos, recebendo retorno em muito poucos casos. Em algumas respostas, ela ouviu que era “muito sênior”, expressão que interpreta como eufemismo para “velha”.

Anna Cowie, de 52 anos e com 30 anos de carreira na publicidade, está desempregada há quase quatro anos e afirma ter perdido a conta de quantos currículos enviou. Ela relata que o trabalho voluntário e o contato presencial em eventos comunitários têm sido mais produtivos para estabelecer conexões e ser vista como pessoa, não apenas como linhas em um papel.

A força-tarefa Women Pivoting to Digital, de Londres, dedicada a mulheres nos serviços financeiros, alertou para o risco de que sistemas de IA na triagem inicial não reconheçam competências importantes de mulheres experientes, por exemplo, aquelas que fizeram pausas na carreira para cuidar de filhos. O grupo estima que IA e automação podem eliminar centenas de milhares de empregos ocupados por mulheres até 2035 e calcula que, sem requalificação, empresas podem enfrentar custos de rescisão superiores a £750 milhões (cerca de R$ 5,2 bilhões), com base no relatório Market and Skills Projections: 2020 to 2035. Em pesquisa do grupo com mais de mil mulheres do setor digital, 68% disseram não ter recebido oportunidades de requalificação ou transição para funções digitais.

Especialistas citados pela matéria afirmam que a forma como muitas ferramentas de recrutamento funcionam pode ampliar vieses. Laura Holden, advogada especializada em IA, disse que a falta de transparência e de regulação sobre como fornecedores desenvolvem e testam essas soluções dificulta identificar possíveis discriminações. Eleanor Drage, pesquisadora sênior da Universidade de Cambridge, declarou que, embora seja difícil provar viés inerente, a lógica de muitas ferramentas é falha ao não captar o valor de candidatos que retornam de pausas na carreira ou habilidades transferíveis.

Há também disputas envolvendo fornecedores: a Workday, desenvolvedora de software de recursos humanos com IA, enfrenta processo na Califórnia que alega discriminação ao descartar candidatos, mas a empresa nega as acusações e afirma que suas ferramentas são rigorosamente testadas e não consideram idade ou gênero, servindo de apoio ao julgamento humano.

Autoridades públicas manifestaram preocupação. O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, afirmou que a IA não tornou o recrutamento “mais justo” e destacou a necessidade de processos transparentes. Um porta-voz do governo ressaltou que leis de igualdade e proteção de dados se aplicam a sistemas de IA e que novas proteções podem ser adotadas quando necessárias. O escritório do prefeito de Londres, Sadiq Khan, disse reconhecer oportunidades e desafios da IA e apoiar recomendações para uso responsável da tecnologia e apoio aos trabalhadores na transição.

Em resposta à experiência compartilhada por muitas mulheres, Stacey Duguid criou um chat e uma plataforma comunitária para conectar candidatas, reduzir a sensação de isolamento e pressionar empresas a enfrentar o preconceito de gênero relacionado à idade.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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