Plataformas de entrega e transporte concentram beneficiários de auxílio nos EUA
Empresas de serviços por aplicativo como DoorDash, Lyft e Uber figuravam em 2025 entre os principais empregadores dos Estados Unidos com maior número de trabalhadores que recebem benefícios do Supplemental Nutrition Assistance Program (SNAP), programa federal de assistência alimentar, segundo relatório do Government Accountability Office (GAO).
Uma pesquisa realizada por um instituto em parceria com o Michigan Metro Area Communities Study, com mais de 1.000 moradores de Michigan, mostrou que cerca de 22% dos entrevistados já realizaram algum tipo de trabalho por plataformas. Entre esses, aproximadamente metade afirmou que a atividade era essencial ou importante para suprir necessidades básicas.
Embora nove em cada 10 trabalhadores valorizem a flexibilidade oferecida pelas plataformas e mais de dois terços avaliem suas experiências positivamente, a pesquisa também destacou preocupações sobre transparência, remuneração e ausência de benefícios típicos do emprego formal. Apenas 6% dos entrevistados relataram ter reduzido jornada ou deixado outro emprego para se dedicar exclusivamente ao trabalho por aplicativos.
O relatório do GAO também apontou que, coletivamente, essas plataformas passaram a ocupar a terceira posição entre os empregadores com maior número de trabalhadores inscritos no Medicaid, programa público de saúde destinado principalmente à população de baixa renda e pessoas com deficiência. Em 2020, elas sequer apareciam entre as cinco primeiras.
Alterações aprovadas em 2025 no amplo pacote tributário e migratório durante o governo do presidente Donald Trump introduziram regras mais rígidas ao Medicaid em estados que expandiram o programa nos últimos 15 anos. As novas normas exigem comprovação de 80 horas mensais de trabalho ou estudo para manter a cobertura; atividades realizadas via aplicativos contam, mas trabalhadores que atuam em várias plataformas podem ter dificuldade para comprovar jornada devido à falta de registros padronizados e à variação entre formatos de registro dos próprios apps.
Em função dessas lacunas, parte dos custos de proteção social acaba sendo coberta por programas públicos. Como alternativa, legisladores estaduais têm debatido modelos de “benefícios portáteis”, em que fundos financiados por empresas ou usuários acompanham o trabalhador entre diferentes plataformas. Na pesquisa, 61% dos trabalhadores de aplicativos apoiaram a ideia.
Dois exemplos práticos nos Estados Unidos são citados: em Nova York, o Black Car Fund ampliou cobertura a motoristas de aplicativos em 2014 e é um fundo sem fins lucrativos financiado por tarifa adicional cobrada dos passageiros; em 2023, o estado acertou um acordo de US$ 328 milhões envolvendo Uber e Lyft, que também estabeleceu licença médica remunerada e remuneração mínima. Na Califórnia, a Proposition 22 de 2020 criou um modelo em que as próprias plataformas gerenciam benefícios limitados, contabilizando apenas as “horas engajadas” para acesso às proteções, o que resultou em baixa cobertura efetiva — um estudo apontou que apenas 10% dos motoristas californianos recebem o auxílio para despesas de saúde previsto na lei.
As experiências mostram caminhos distintos de regulação e implementação de benefícios, com implicações diferentes para o acesso dos trabalhadores a proteções sociais e para a dependência de programas financiados por contribuintes.
Fonte: G1


