A atual onda de calor e os incêndios que atingem o sul da Europa reacenderam o alerta sobre os efeitos do clima na produção de azeite na Espanha, maior produtora mundial. Apesar dos incêndios localizados, associações do setor ainda consideram improvável, no momento, uma alta generalizada nos preços, já que as regiões responsáveis pela maior parte da colheita permanecem afastadas dos focos e há expectativa de safra recorde.
Quem e onde
A Espanha responde por cerca de 70% da produção de azeite na União Europeia e por 45% do azeite consumido no mundo, segundo o Ministério da Agricultura, Pesca e Alimentação do país. Incêndios recentes, por sua vez, afetaram áreas como a província de Castellón, onde a associação agrícola Asaja estima prejuízos entre 35 milhões e 40 milhões de euros à agricultura local.
O que dizem as autoridades
O Conselho Oleícola Internacional (COI) afirmou que ainda é cedo para avaliar o impacto potencial das chamas sobre a produção de azeitonas e azeite, pois uma avaliação confiável dependerá de informações detalhadas e da verificação dos danos pelas autoridades nacionais competentes. O Ministério da Agricultura da Espanha informou estar levantando dados sobre os efeitos dos incêndios em áreas agrícolas e pecuárias e destacou que, em geral, as zonas mais atingidas não correspondem às principais áreas produtoras de azeite — com exceção de parte da Sierra de Espadán, em Castellón, cujo impacto nas exportações é considerado pequeno.
Risco climático e safra
Especialistas alertam que o perigo central não é apenas o fogo, mas os efeitos do clima extremo: restrições hídricas prolongadas reduzem a umidade do solo, podendo provocar queda prematura das azeitonas e prejudicar a qualidade dos frutos. Ondas de calor sucessivas também elevam custos de produção, que podem ser repassados ao consumidor. O COI observou que o aumento da frequência e intensidade de eventos extremos é preocupação crescente para o setor olivícola na Bacia do Mediterrâneo.
Projeções e medidas de mercado
Apesar dos riscos, projeções de sites especializados indicam uma safra histórica para a próxima colheita, atribuída às chuvas abundantes do último inverno europeu, que reabasteceram reservatórios. O azeitólogo Marcelo Scofano disse que a expectativa é favorável graças ao retorno das chuvas, mas que o cenário ainda depende do comportamento do clima nas semanas que antecedem a colheita. O setor também passa por transição para sistemas “superintensivos”, com variedades e colheita mecanizada para enfrentar escassez de mão de obra e otimizar o uso de água.
Para garantir estabilidade de mercado diante da possibilidade de excedente de oferta, o Ministério da Agricultura abriu consulta pública sobre normas de comercialização do azeite para a safra 2026/2027, com período de contribuições entre 23 de julho e 13 de agosto. A legislação da União Europeia prevê, em caso de superprodução, a retirada de parte da produção do mercado até a próxima campanha para evitar quedas bruscas de preço; esse mecanismo é acionado se a produção ultrapassar 120% da média das seis temporadas anteriores — patamar não alcançado na safra anterior.
Repercussão para o Brasil
O mercado espanhol influencia diretamente o Brasil, grande importador de azeite. Entre 2023 e 2024, a seca na Península Ibérica levou a garrafas de 500 ml a superarem os R$ 50 nas prateleiras brasileiras. A produção nacional representa apenas 1% do consumo do país, segundo o Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva), que projeta estabilidade de preços para produtos nacionais. Scofano afirma não haver, até o momento, sinais de prejuízo para a próxima safra nem de alta de preços, e ressalta que a expectativa é de maior oferta, embora o setor permaneça em alerta caso o calor persista ou incêndios alcancem áreas-chave.
Fonte: G1


