O Ibovespa, principal indicador da B3, fechou em baixa pela 11ª sessão seguida, configurando a sequência mais longa de perdas desde 2023. Se a trajetória se mantiver, o índice pode alcançar ou superar a marca de 13 pregões consecutivos de queda registrada em agosto do ano passado.
Apesar da série negativa, o desempenho acumulado do índice no ano permanece positivo, com alta de 3,79% em 2026. No entanto, o mês de agosto já reduziu significativamente os ganhos anuais: somente em agosto o Ibovespa acumula queda de 6,55%, o que coloca a bolsa brasileira como a segunda pior entre os 21 principais mercados monitorados pela consultoria Elos Ayta.
Saída recorde de investidores estrangeiros
O principal fator que impulsionou a queda foi a venda de ações por investidores estrangeiros. Até 13 de agosto, o fluxo de saída somou R$ 15,63 bilhões — o maior valor mensal desde 2022. O recorde anterior havia sido registrado em maio, com retirada de R$ 13,28 bilhões. Com isso, 2026 já inclui as duas maiores retiradas mensais da série histórica.
Ao aumentarem as vendas, estrangeiros elevaram a oferta de papéis no mercado, pressionando preços e, por consequência, o Ibovespa. Essa dinâmica contrasta com o início do ano, quando aportes externos de R$ 42,56 bilhões entre janeiro e fevereiro ajudaram o índice a bater recordes e a superar os 190 mil pontos.
Fatores que mudaram o apetite pelo Brasil
Analistas apontam que não existe um único motivo para a reversão. A combinação de saída de capital estrangeiro, dúvidas sobre a velocidade dos cortes na taxa Selic, incertezas fiscais e eleitorais e a piora do cenário geopolítico reduziu a atratividade dos ativos locais.
Matheus Spiess, analista da Empiricus, afirma que parte do mercado passou a revisar expectativas sobre o ritmo de queda da Selic diante do conflito no Oriente Médio e da persistência da inflação. Para Beny Fard, sócio da Segundo Minuto, o mercado está precificando um prêmio de risco eleitoral que mistura incerteza sobre cortes na Selic, competição por capital global e fatores externos.
O aumento da busca por ativos considerados seguros — dólar, ouro e títulos do Tesouro dos EUA — também contribuiu para a desvalorização de ações em mercados emergentes. A escalada de tensões no Oriente Médio elevou a aversão ao risco global e impulsionou o chamado “flight to quality”.
Impacto por setores
Setores voltados ao consumo doméstico e empresas dependentes de crédito foram os mais afetados, segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. Juros altos, maior inadimplência e queda do poder de compra pressionam vendas e margens de varejistas e fabricantes de bens não essenciais. Bancos também sofreram pela elevação do risco de crédito.
Por outro lado, empresas com receitas atreladas ao dólar e às commodities, como Petrobras e Vale, contribuíram para limitar as perdas do Ibovespa, ao se beneficiarem da valorização de preços internacionais.
O que observar a seguir
Analistas dizem que boa parte dos riscos já foi precificada, mas o índice seguirá sensível a novos dados econômicos, à evolução das contas públicas e ao noticiário internacional. Spiess aponta como decisivos os indicadores de inflação e atividade no Brasil, o cenário político e fiscal em ano eleitoral e os desdobramentos geopolíticos no Oriente Médio.
Enquanto isso, alguns especialistas veem oportunidades em ações que ficaram mais baratas após a correção, caso haja melhora no panorama macroeconômico e espaço para cortes adicionais na Selic.
Fonte: G1


