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quinta-feira, setembro 3, 2026

Da periferia à Medicina na USP: trajetória de quem não imaginava chegar lá

Da escola pública à Medicina na USP

Angelica Toledo, 37 anos, trabalha como médica generalista em plantões de hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) em São Paulo. Nascida e criada em Cidade Tiradentes, extremo leste da capital, ela foi aprovada em Medicina na Universidade de São Paulo (USP) em 2018. A história de Angelica integra a série especial g1 20 anos e reflete trajetórias de brasileiros que transformaram a vida por meio da educação.

Para Angelica, a vida na periferia parecia impor um roteiro previsível: concluir o ensino médio e entrar no mercado de trabalho. Ela conta que não conhecia ninguém da sua rede que tivesse cursado Medicina, o que tornava o objetivo distante do seu universo familiar e social. Em 2008, buscando rapidez para ingressar no mercado, iniciou um curso técnico em análises clínicas e, em seguida, outro em saúde bucal. Foi nesses ambientes, com professores especializados, que percebeu duas coisas: a defasagem no aprendizado deixada pela escola pública e o desejo de estudar Medicina.

Nos anos seguintes, Angelica alternou trabalho, cursinho noturno e estudos, até decidir concentrar-se exclusivamente na preparação. Depois de economizar, passou a dedicar-se integralmente aos estudos; em um ano, sua nota na primeira fase da Fuvest subiu 20 pontos. Ainda assim, a aprovação não veio de imediato: cinco anos se passaram até que ela conquistasse a vaga. A pressão financeira aumentava, e as reservas estavam perto do fim, o que tornava a aprovação ainda mais urgente. Ela lembra que chegou a estudar das 7h às 19h enquanto a biblioteca permanecia aberta. Quando viu o nome na lista de aprovados da Fuvest 2018, o sentimento predominante foi de alívio.

Angelica destaca dificuldades enfrentadas ao longo do caminho — lacunas educacionais da escola pública, necessidade de trabalhar e a distância entre casa e faculdade —, mas aponta que a principal barreira para pessoas do seu perfil é a falta de perspectiva: muitos não chegam a acreditar que podem cursar Medicina. Diz que há necessidade de cobrar, incentivar e informar sobre a existência de vagas em instituições públicas.

No mesmo aspecto de superação, Ariel, morador da zona rural de Euclides da Cunha (BA), também busca recuperar conteúdos que não assimilou no ensino médio para tentar Medicina. Ex-aluno de escola pública, caçula de cinco filhos e primeiro da família a tentar a universidade, Ariel cresceu em um contexto em que a educação formal dos pais é limitada — a mãe trabalha como diarista e o pai é agricultor, ambos sem alfabetização.

A decisão pela Medicina ocorreu em 2021, quando o avô ficou doente e Ariel passou a realizar curativos por oito meses, o que mostrou a ele a importância de ter um profissional de saúde na família, sobretudo em regiões com acesso precário aos serviços. Há cinco anos, ele estuda sozinho para recuperar conteúdos e se preparar para o Enem; enfrentou um período de um ano e meio sem aulas durante a pandemia e só agora revisita alguns temas pela primeira vez. Ariel pretende prestar o Exame Nacional do Ensino Médio novamente no fim de 2026, na expectativa de melhorar o desempenho. Nos primeiros anos, considera que suas notas ficaram muito distantes do necessário; ainda assim, afirma que seu objetivo é aumentar o número de vagas públicas para tornar o acesso mais equilibrado e levar o “jaleco” para casa.

G1 – matéria original

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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