Resumo: Uma análise técnica identificou milhares de desempenhos estatisticamente atípicos nas três primeiras edições do Provão Paulista, com forte concentração em determinadas escolas e unidades regionais de ensino do estado de São Paulo nas edições de 2024 e 2025. O estudo, elaborado pela Rede Escola Pública e Universidade (REPU) e divulgado em 4 de setembro de 2026, relaciona os padrões detectados a riscos de irregularidades sistêmicas no processo de aplicação do exame.
O que é o Provão Paulista
O Provão Paulista é um vestibular seriado aplicado aos estudantes da rede pública estadual de São Paulo, cujo resultado final é composto pelo desempenho nas três edições realizadas ao longo do ensino médio. Um aluno que inicia o 1º ano em 2026, por exemplo, fará as provas em 2027 e 2028, quando sua nota final será calculada para concorrer a vagas em universidades públicas.
Metodologia e achados principais
A REPU analisou microdados das edições de 2023, 2024 e 2025 obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP). Os pesquisadores cruzaram esses dados com registros de bonificações pagas a profissionais da rede e com listas de convocados para instituições públicas de ensino superior a partir do exame.
O estudo aponta 4.305 desempenhos do 3º ano em 2025 com elevações extraordinárias em comparação a 2023 — número 12,7 vezes superior ao esperado estatisticamente. A proporção de resultados classificados como atípicos entre estudantes do 3º ano da rede estadual subiu de 0,49% em 2024 para 1,91% em 2025. Nas ETECs, o percentual de atipicidades em 2025 foi de 0,17%, considerado compatível com a normalidade estatística.
Concentração em escolas e regiões
Metade dos 4.305 resultados atípicos de 2025 estava concentrada em apenas 50 escolas estaduais, equivalentes a 1,4% das unidades participantes do Provão. Em 44 dessas escolas, mais de 40% dos estudantes tiveram desempenhos classificados como atípicos; em algumas unidades o índice superou 90%.
Regionalmente, metade dos casos estava restrita a apenas 8 das 91 Unidades Regionais de Ensino (UREs). Na URE com maior proporção, 28,6% das notas dos alunos do 3º ano foram consideradas fora do padrão.
Impacto nas convocações para universidades públicas
O relatório encontrou associação entre a presença de resultados atípicos em determinadas escolas e o número de estudantes dessas unidades convocados para matrícula no primeiro semestre de 2026. Dos 14.271 alunos da rede estadual convocados por meio do Provão, 1.608 (11,3%) eram de 128 escolas nas quais mais de 20% dos resultados individuais foram classificados como atípicos. Outros 1.266 convocados vieram de escolas com mais de 40% de resultados atípicos e 1.017 de unidades onde mais da metade dos estudantes apresentou desempenho anômalo.
Em nove escolas destacadas pelo estudo — com mais de 75% de resultados atípicos e mais de 75% de convocados —, 203 dos 225 estudantes (90%) tiveram desempenhos atípicos e 192 (85%) foram convocados para vagas em instituições públicas.
Fatores apontados e recomendações
Os autores relacionam os padrões anômalos a uma combinação de fatores institucionais: acúmulo de funções do Provão (avaliação do sistema, processo seletivo e base para bonificações e punições), aplicação das provas nas próprias escolas sob vigilância de profissionais locais, aumento do número de escolas beneficiadas por bonificações e maior uso de dispositivos digitais em rotinas escolares.
A REPU recomenda, entre outras medidas, controle rigoroso de dispositivos eletrônicos e circulação das provas, revisão dos critérios para definição dos locais de aplicação, aprimoramento da seleção e supervisão dos aplicadores, mecanismos permanentes de auditoria para identificar discrepâncias, participação das instituições de ensino superior na revisão das medidas de segurança, suspensão do uso do Provão para bonificações e punições e separação entre avaliação do sistema e processo seletivo. Os pesquisadores também pedem a divulgação completa dos microdados e da documentação metodológica.
Limitações e ressalvas
Os autores destacam que a metodologia é estatística e não permite identificar, a partir dos dados analisados, se um estudante específico fraudou a prova ou quantas vagas teriam sido ocupadas por resultados produzidos em condições irregulares. Segundo o estudo, o problema é institucional, relacionado às condições de aplicação e às políticas de responsabilização.
Denúncias anteriores e transparência
O relatório recupera denúncias desde a primeira edição do Provão (2023), incluindo relatos de vazamento, circulação de imagens das provas, uso de celulares e facilitação de cola. Em novembro de 2025, a Seduc-SP confirmou a veracidade de imagens de provas em seis casos, que foram tratados na época como ocorrências pontuais e cujas provas foram anuladas.
A nota técnica também critica a divulgação dos dados pela Seduc-SP: as bases do Provão e do Saresp 2025 foram publicadas em versões sucessivas ao longo de 2026, com inclusão, retirada ou correção de informações, e parte dos dados solicitados ainda não havia sido disponibilizada quando o estudo foi concluído, como os desempenhos dos estudantes do Instituto Federal de São Paulo.
Posição da Secretaria da Educação
A Seduc-SP afirmou que os dados do estudo não permitem concluir que ocorreu fraude sistêmica nem que o processo seletivo foi comprometido. A secretaria ressaltou que resultados estatisticamente atípicos não equivalem, isoladamente, a casos de fraude e citou cruzamentos com avaliações externas (Saeb) que, segundo a pasta, mostram desempenho elevado em algumas escolas apontadas. A secretaria reconheceu ocorrências pontuais de indisciplina em 2025 — seis casos de entrada de celulares em salas — e informou que as provas desses casos foram anuladas e que as equipes escolares foram orientadas.
Fonte original: G1 – Relatório identifica milhares de resultados atípicos no Provão Paulista, que seleciona para universidades públicas


