32.6 C
Uberlândia
sábado, setembro 5, 2026

Clima e falta de alimentos elevam risco de conflitos armados, apontam estudos

Pressão sobre sistemas alimentares pode desencadear instabilidade

Pesquisas recentes apontam que a combinação de eventos climáticos extremos e escassez de alimentos aumenta o risco de conflitos em várias regiões do mundo. Secas severas, amplificadas pelo El Niño em desenvolvimento, já têm reduzido safras e ameaçam agravar a falta de alimentos para milhões de pessoas no próximo ano.

Ao mesmo tempo, guerras e rupturas nas rotas comerciais complicam a circulação de alimentos e insumos agrícolas. A guerra na Ucrânia vem gerando instabilidade nos mercados de grãos, enquanto o conflito envolvendo o Irã no Estreito de Ormuz elevou preços de combustíveis e fertilizantes, encarecendo a produção agrícola global. O confronto por drones entre Rússia e Ucrânia também já afetou mais de 20 países.

O Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (Cadi), criado por pesquisadores do Instituto de Análise Econômica (IAE-CSIC) e da Escola de Economia de Barcelona, mapeia como as mudanças climáticas vêm alterando a produtividade agrícola mundial. Segundo um dos autores, Hannes Mueller, as perdas mais expressivas ocorrem em regiões tropicais, e centenas de milhões de pessoas vivem em áreas onde as colheitas são menores do que há 30 anos.

Mueller citou Camboja, Bangladesh, Burundi, Nigéria, Paraguai e El Salvador como exemplos de países já sentindo declínios de produção. Ele também chamou atenção para o Norte da África como uma área com sinais preocupantes no mapa do Cadi. A projeção é que, nos próximos 25 anos, quase metade da população mundial pode passar a viver em zonas onde a produção agrícola será menor.

Os pesquisadores destacam ainda que não só a redução, mas também a mudança na produtividade pode gerar tensão. À medida que alguns territórios se tornam mais produtivos, eles atraem investidores e intensificam disputas por terra e recursos — um processo que pode ocorrer dentro de um mesmo país e criar novos vencedores e perdedores. O Sudão foi citado como exemplo: com possível aumento da produção em algumas áreas, pode haver conflito pelo controle dessas terras.

A análise do Cadi indica que transformações agrícolas têm maior probabilidade de provocar violência em países não democráticos, onde instituições e mecanismos de negociação são mais frágeis. Em democracias, por outro lado, existem plataformas institucionais que tendem a encaminhar disputas por vias negociadas, reduzindo o potencial de conflito.

Especialistas também apontam o Sul da Ásia e o Sahel como regiões de atenção. Abdullah Fahimi, do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP), ressaltou que o Sul da Ásia — com cerca de 2 bilhões de habitantes — depende de recursos hídricos vulneráveis e de importações de alimentos, como trigo, milho e óleo de palma de países como Rússia, Ucrânia, Canadá e Malásia. Ondas de calor, enchentes, queda de produtividade e intrusão de água salgada já pressionam a agricultura local.

Eventos recentes, como as inundações que atingiram o Nepal em agosto de 2026, ilustram desafios que podem se tornar mais frequentes. Fahimi alertou que o degelo nas cordilheiras do Himalaia e do Hindu Kush aumenta a disponibilidade hídrica no curto prazo, mas poderá provocar grave crise humanitária mais adiante neste século, afetando até cerca de 2 bilhões de pessoas.

Além dos impactos diretos sobre a produção, a insegurança alimentar pode enfraquecer governos, fomentar migrações e facilitar o recrutamento por grupos armados — fenômeno já observado em países como Nigéria e Afeganistão. Para evitar que pressões sobre os sistemas alimentares se transformem em pressões sobre a paz, os estudos defendem que adaptação climática deve abranger não só técnicas agrícolas, mas também mecanismos institucionais para gerenciar disputas por terra, água e empregos.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
Últimas Notícias
Veja também