O que aconteceu
Bancos centrais de países europeus têm retirado ouro mantido nos Estados Unidos e redistribuído parte dessas reservas para centros financeiros europeus. O Banco Central dos Países Baixos (DNB) anunciou a transferência de cerca de 86 toneladas de ouro de Nova York para Londres, justificando a mudança por “instabilidade geopolítica” e pela intenção de aumentar a preparação para crises.
Quem e quando
Além da Holanda, a França retirou sua reserva remanescente em ouro do Federal Reserve de Nova York entre julho de 2025 e janeiro de 2026. Políticos na Alemanha e na Itália, que detêm a segunda e a terceira maiores reservas de ouro do mundo, também defendem a retirada de ativos guardados nos EUA.
Onde foram os ativos
Grande parte das transferências recentes destinou-se ao Banco da Inglaterra e ao mercado de Londres, escolhido por autoridades por sua liquidez e capacidade de negociação. O Banco da Inglaterra é um dos maiores custodiante de ouro globalmente, com estimativas que apontam para cerca de 400 mil barras avaliadas em cerca de 270 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 1,3 trilhão).
Por que as autoridades mudaram o armazenamento
Autoridades citam receio de que ativos mantidos em jurisdições estrangeiras possam ficar temporariamente inacessíveis em cenários extremos envolvendo sanções, disputas legais ou tensões políticas. Sebastien Tillett, analista da Oxford Economics, descreve a apreensão direta dos ativos como um risco “extremamente remoto”, mas ressalta a preocupação com a capacidade de acesso em situações de crise.
Contexto e dados
Segundo Krishnan Gopaul, do Conselho Mundial do Ouro, bancos centrais aumentaram as compras de ouro desde a crise financeira de 2008. Pesquisa do conselho mostra que, em média, bancos centrais acumularam 1.000 toneladas de ouro nos últimos quatro anos, contra 500 toneladas na década anterior. Gopaul liga esse movimento a crises financeiras, políticas, à pandemia e a um período prolongado de conflitos e instabilidade geopolítica.
Complexidade operacional
Transferir ouro entre custodiante é processo custoso, arriscado e logisticamente complexo. A decisão sobre onde manter ouro também diz respeito à facilidade de venda ou troca por moedas e outros ativos em momentos de estresse. Por esse motivo, alguns países preferem armazenar o metal próximo a centros financeiros com alta liquidez, como Londres.
Relação com os EUA
Apesar das movimentações, os Estados Unidos permanecem um custodiante importante para parte das reservas europeias. O Bundesbank, por exemplo, trouxe cerca de 300 toneladas de volta à Alemanha entre 2013 e 2017, mas ainda mantém mais de 1.000 toneladas em território americano e emitiu comunicado afirmando confiar no Federal Reserve de Nova York como parceiro seguro para custódia.
Outros sinais de mudança
Preocupações com os mercados financeiros dos EUA também aparecem em outras decisões: o gestor do fundo soberano da Noruega, com patrimônio estimado em 2,3 trilhões de dólares (R$ 11,7 trilhões), declarou a necessidade de reduzir significativamente a exposição a títulos do Tesouro americano, citando pressões sobre custos de financiamento causadas por inflação e aumento da dívida.
As ações da Holanda e da França e os debates em outros países europeus ilustram uma atenção crescente ao local físico das reservas de ouro, com o objetivo de garantir que o metal possa ser mobilizado com rapidez caso se torne necessário.
Fonte: G1


