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domingo, setembro 27, 2026

Risco de guerra pode reabrir mercado para montadoras europeias por meio da produção militar

Oferta militar como resposta à queda da produção civil

A Ford participa de uma proposta que concorre ao fornecimento de veículos para o programa de mobilidade leve do Exército britânico. O protótipo, baseado na linha Ranger, tem capacidade para transportar até duas toneladas e rebocar até quatro toneladas, e foi mostrado em frente à fábrica da Ford em Dagenham, no leste de Londres.

Na unidade de Dagenham são produzidos, atualmente, motores diesel de três litros que equipam esse veículo. A linha, que emprega cerca de 2.000 pessoas, viu o volume anual de produção cair de 90.000 unidades para aproximadamente metade na última década.

A Ford integra uma joint venture com a General Dynamics e a Ricardo para disputar um contrato com o Ministério da Defesa do Reino Unido destinado ao fornecimento de 9.000 veículos ao longo dos próximos cinco a sete anos, em substituição à frota do Exército baseada em modelos Land Rover.

Motivações e histórico

Lisa Brankin, presidente da Ford no Reino Unido, classificou a oferta como uma oportunidade para demonstrar a capacidade da empresa de atender às necessidades do setor de defesa. A montadora já teve participação relevante na produção militar no passado: entre 1939 e 1945 a fábrica de Dagenham produziu 360.000 veículos para o esforço de guerra dos Aliados, enquanto trabalhadores de Manchester fabricaram 34.000 motores Merlin projetados pela Rolls-Royce.

Executivos e fornecedores do setor automotivo europeus veem no aumento dos orçamentos militares uma possível alternativa para a crescente ociosidade das fábricas e para o enfraquecimento da indústria automotiva regional.

Outras montadoras e iniciativas

A Renault assinou acordo com a Thales para fabricar drones militares, com a meta de produzir até 1.000 unidades por mês, aproveitando capacidade de produção em massa. A Volkswagen aceitou vender uma fábrica subutilizada em Osnabrück para transformá-la em um polo de produção militar em parceria com um investidor de defesa israelense. A Jaguar Land Rover (JLR) também disputa o contrato britânico e criou uma divisão voltada ao setor militar.

Para a indústria, a transição para contratos de defesa pode absorver parte da capacidade ociosa, mas representa desafios: protocolos de segurança, rivalidades políticas e a diferença de escala entre demanda militar e mercado de consumo tornam a adaptação complexa.

Impactos na cadeia de fornecedores e emprego

Mike Hawes, da Sociedade de Fabricantes e Comerciantes de Motores (SMMT), apontou que a produção do setor automotivo britânico caiu pela metade em cerca de uma década, o que afeta fornecedores que dependem de volumes maiores. A JLR anunciou recentemente corte de 4.000 vagas do quadro de 30.000 funcionários no Reino Unido, o que suscitou preocupação entre fornecedores que têm forte dependência dessa montadora.

Executivos de grandes fornecedores enviaram carta ao primeiro-ministro, ao chanceler e ao prefeito de West Midlands pedindo apoio para entrar nos setores aeroespacial e de defesa. Os signatários representam empresas que empregam diretamente mais de 8.600 pessoas, além da Confederação Britânica de Conformação de Metais, que representa cerca de 75.000 trabalhadores. Segundo a carta, a cadeia de fornecedores sustenta cerca de 183.000 empregos na produção e enfrenta risco de declínio de longo prazo.

Pressões externas e capacidade ociosa

Além das transformações internas, as montadoras europeias lidam com forte concorrência de fabricantes chineses como BYD, Chery e Geely, que ampliaram presença no mercado europeu durante a transição para veículos elétricos. A Volkswagen já anunciou planos para reduzir 100.000 postos de trabalho nos próximos anos e fechou uma unidade em Dresden, com risco de encerrar outras, inclusive a fábrica de Zwickau, onde investiu mais de €1 bilhão há quatro anos para adaptar linhas à produção de veículos elétricos.

Limites da solução militar

Sigrid de Vries, diretora-geral da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (Acea), disse que montadoras e fornecedores dispõem de instalações, conhecimento em produção e cadeias integradas que podem ser úteis ao reforço da defesa, mas alertou que a transição não é simples e dificilmente as encomendas militares alcançarão os volumes do mercado de consumo em tempo de paz.

Um porta-voz do Ministério da Defesa do Reino Unido declarou que o governo pretende que a indústria britânica tenha um “papel central” no fornecimento dos milhares de veículos e afirmou que 85% dos gastos com defesa permanecem no Reino Unido, contribuindo para a reindustrialização e transformando o setor de defesa em um motor de crescimento.

Apesar do interesse e das iniciativas em toda a Europa, analistas do setor observam que, mesmo com o aumento dos gastos militares, é improvável que a indústria automobilística recupere integralmente a escala e o peso industrial que teve no passado.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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