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quarta-feira, setembro 30, 2026

Falta de reconhecimento no trabalho é associada a adoecimento, aponta pesquisa da Unicamp

Pesquisa relaciona ausência de reconhecimento a problemas de saúde mental

Ricardo Bertoni Pompeu, pesquisador da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp (SP), investigou como a falta de reconhecimento no trabalho impacta a saúde mental de trabalhadores. O resultado integrou sua tese de doutorado intitulada “Reconhecimento no ambiente de trabalho: indo além da Justiça Organizacional” e reúne relatos de assalariados de vários setores que sofreram com riscos ocupacionais continuados.

Segundo o pesquisador, a motivação para o estudo veio da convivência com alunos da Fatec (Faculdade de Tecnologia de Americana), muitos vindos de famílias de baixa renda que acumulam estudo e emprego. Ele relata que esses estudantes são cobrados por resultados cada vez maiores e sofrem com a sensação de que o reconhecimento nunca chega, diante de discursos como o de “sair da zona de conforto”.

Quadro teórico e conceito de “trabalho real”

A investigação se apoia na Teoria do Reconhecimento do filósofo Axel Honneth e na Psicodinâmica do Trabalho do psiquiatra francês Christophe Dejours. A partir dessas referências, Pompeu destaca o conceito de trabalho real — o conjunto de esforços cognitivos, físicos, afetivos, emocionais e psíquicos exigidos para executar tarefas — que costuma ficar invisível diante da mensuração voltada apenas para o resultado prescrito.

O autor exemplifica que elaborar um relatório implica decisões sobre conteúdo, profundidade e adaptação ao ambiente físico, além de gestão de emoções e dúvidas sobre competência. Esse esforço acumulado, quando não reconhecido, tende a adoecer o trabalhador.

Relatos e identificação de duas “patologias” organizacionais

Foram entrevistadas 18 pessoas entre 20 e 40 anos, cujos depoimentos revelam práticas empresariais tóxicas nem sempre percebidas pelos gestores. Um dos casos descritos envolve um vendedor que abriu mão de comissões para assumir o salário de subgerente, endividou-se e, após a empresa contratar outra pessoa para a vaga, foi obrigado a treiná-la. O episódio resultou em sintomas como gagueira e ansiedade.

A partir desses relatos, Pompeu propõe as categorias de contingencialidade e disjuntividade como patologias estruturalmente presentes no mundo do trabalho contemporâneo. A contingencialidade refere-se ao uso do trabalhador como recurso “just in time”, convocado apenas quando necessário, sem consideração por sua vida pessoal ou projetos. A disjuntividade descreve o apagamento da trajetória profissional do indivíduo, tornando irrelevante a experiência acumulada e privilegiando apenas o desempenho imediato.

Nova norma e ceticismo sobre sua efetividade

Desde 26 de maio de 2026, empresas brasileiras passaram a ser obrigadas a identificar, avaliar e gerenciar fatores de risco psicossociais no âmbito do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), incluindo metas abusivas, jornadas excessivas, sobrecarga, cobranças desproporcionais e assédio moral ou sexual. A medida integra os riscos psicossociais aos processos previstos pela NR-1, norma de 1978 que trata das disposições gerais sobre ambiente de trabalho e gestão de riscos ocupacionais.

Pompeu, porém, declara ceticismo quanto aos benefícios práticos da regulamentação. Ele defende a existência de canais de denúncia e compartilha a visão do psiquiatra Christophe Dejours, de que muitas empresas podem limitar-se a produzir documentação para se resguardar diante de fiscalizações, sem efetivamente mudar práticas que geram sofrimento. Segundo o pesquisador, problemas de adoecimento tendem a ser tratados como situações individuais, e há dúvidas sobre se medidas de adequação virarão rotina nas organizações.

Para leitura da reportagem original: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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