Quem e o que: Estudantes do ensino médio e universitários franceses protagonizaram manifestações nesta semana exigindo professores substitutos, mais recursos para as escolas e reajustes salariais para servidores públicos. As reivindicações também ecoam demandas dos próprios docentes por melhores condições de trabalho.
Quando e onde: As mobilizações ocorreram na França ao longo desta semana, com atos em localidades como Saint-Denis, nos arredores de Paris.
Salários e satisfação
Em 2024, o salário médio líquido de um professor da Educação Nacional da França foi de € 3.090 por mês, aumento nominal de 6,4% em relação a 2023 e ganho real de 4,3% após descontada a inflação. Apesar disso, apenas 27% dos professores dos anos finais do ensino fundamental declararam estar satisfeitos com a remuneração no levantamento TALIS 2024. No Brasil, a satisfação com o salário entre professores foi de 22,3% na mesma pesquisa, quatro pontos percentuais acima de 2018.
O Brasil tem piso salarial nacional para professores da educação básica fixado em 2026 em R$ 5.130,63 para jornada de 40 horas semanais, com reajuste de 5,4%, mas esse valor não representa necessariamente o que todo professor recebe, já que estados e municípios têm planos próprios.
Jornada e tarefas
Segundo o TALIS 2024, a distribuição da jornada difere entre os países: professores brasileiros em tempo integral aumentaram a jornada total em 4,6 horas semanais entre 2018 e 2024 e dedicam cerca de nove horas a mais por semana a atividades de ensino do que os colegas franceses. A forma como o tempo é usado, porém, varia conforme atividades e atribuições.
Fontes de estresse
Os principais fatores de estresse indicados pelos professores também divergem. Na França, os três mais citados foram acompanhar mudanças nas exigências das autoridades públicas (62%), excesso de trabalho administrativo (58%) e adaptar aulas para alunos com necessidades educacionais especiais (49%). No Brasil, os motivos mais apontados foram ser responsabilizado pelo desempenho dos alunos (66%), manter a disciplina em sala (64%) e excesso de correções (60%).
Estabilidade e contratos
A estabilidade contratual difere marcadamente: em 2024, 94% dos professores dos anos finais do ensino fundamental na França tinham contrato permanente, contra 64% no Brasil. A proporção de docentes em regime parcial foi de 16% na França e 72% no Brasil, lembrando que o TALIS considera parcial quem declara trabalhar até 90% da jornada integral e que docentes brasileiros podem acumular vínculos.
Escassez e permanência
Sobrequalificação e saída de profissionais também aparecem nos dados: em 2024/25, 9% dos professores da educação básica pública no Brasil não eram plenamente qualificados, percentual próximo à média da OCDE (9,1%). A taxa de desistência de profissionais plenamente qualificados no Brasil foi de 10,3% em 2022, enquanto na França foi 1,9% em 2023/24, segundo a OCDE. A escassez pode ser medida de várias formas, incluindo vagas sem preenchimento e dificuldade para substituir ausências temporárias.
Financiamento e resultados
Em 2023, tanto Brasil quanto França destinaram 4,5% do PIB à educação, mas o gasto por estudante difere: cerca de US$ 13,8 mil na França e US$ 4,1 mil no Brasil, em paridade de poder de compra. O orçamento francês de 2026 previu aumento de € 200 milhões em relação a 2025 e a criação de quase 5,9 mil vagas adicionais no setor.
Quanto ao desempenho, o PISA 2025 registrou queda na França em matemática e leitura em relação a 2022, com resultados próximos à média da OCDE. O Brasil permaneceu abaixo da média da OCDE: 28% dos estudantes atingiram ao menos o nível 2 em matemática (65% na OCDE), em leitura 49% (69% na OCDE) e em ciências 48% (74% na OCDE).
Contexto: As manifestações francesas destacam questões que também aparecem no Brasil, como valorização dos profissionais, condições de trabalho e recursos, mas os dados mostram diferenças na forma e na dimensão desses problemas entre os dois sistemas educacionais.
Fonte: G1


