Biao Xiang, professor e antropólogo de 54 anos, tornou-se nos últimos meses uma figura de destaque entre jovens chineses ao abordar a ansiedade e as incertezas enfrentadas pela geração Z. Recentemente, cerca de 500 pessoas — em sua maioria chineses residentes no exterior — acompanharam sua palestra em Singapura, onde falou por mais de uma hora e respondeu a perguntas do público.
O interesse por Xiang se deve aos temas que ele insiste em discutir: as pressões do mercado de trabalho, as dificuldades de formar família, a competição intensa e a constante necessidade de atualização profissional. Durante o encontro, dezenas de participantes formaram filas para cumprimentá-lo e tirar fotos. Zihan Han, jovem que o admira, descreveu-o como “uma estrela enviada do céu”.
Xiang conduziu palestras em universidades chinesas de prestígio, incluindo sua antiga instituição, a Universidade de Pequim, e uma de suas apresentações no início do ano teve transmissão ao vivo por lotar o auditório. A imprensa chinesa relata que a expressão “em caso de dúvida, pergunte para Biao Xiang” passou a circular entre estudantes e jovens profissionais.
Diagnóstico social e termos
Atualmente residindo na Alemanha, onde dirige o Instituto Max Planck de Antropologia Social, Xiang estuda transformações sociais na China e em outras regiões da Ásia. Ele afirma que a sociedade chinesa vive um momento decisivo em que muitos buscam sentido diante de mudanças rápidas. O presidente Xi Jinping já reconheceu esse contexto ao dizer que “a principal contradição” está “entre as crescentes necessidades do povo para uma vida melhor e o desenvolvimento desequilibrado e insuficiente”.
Para explicar a situação dos jovens, Xiang usa conceitos como “flutuando” — para quem trabalha apenas para sobreviver — e “o próximo”, que descreve o campo intermediário de relações pessoais que tende a ser negligenciado. Ele também discute a “involução”, termo usado para descrever competição intensa com pouco retorno, e observa fenômenos populares como “desconectar-se” e a chamada “maldição dos 35”, que refere à dificuldade de conseguir novo emprego após essa idade.
O antropólogo aponta dois fatores que, segundo ele, agravam a ansiedade: o mercado imobiliário — que vinculou segurança familiar ao valor da casa — e a expansão do ensino superior, que elevou a competição por vagas e títulos. Na visão de Xiang, a fórmula buscada por muitos segue sendo obter um bom diploma, conseguir emprego estável, casar e comprar imóvel.
Repercussão e postura
Nas redes sociais chinesas, usuários elogiam a abordagem de Xiang. Um comentário no RedNote afirma que “ele sempre analisa os problemas do ponto de vista dos vulneráveis, atribui o estresse pessoal a causas macro e incentiva as pessoas a participar ativamente da vida”. Outro ressalta que Xiang “nunca solta frases vazias e superficiais; na verdade, ele enfrenta os dilemas da vida real junto conosco”.
Em entrevista à BBC em Singapura, Xiang avaliou: “Todos sabem onde está o problema, mas se recusam a enfrentá-lo. Às vezes, observá-lo é doloroso demais, ou eles não sabem como fazer. Mas, como acadêmico, não é aterrador se você puder descrever o problema. É assim que se analisa e administra.”
Apesar de alertas de colegas sobre reputação e cautela acadêmica, Xiang diz receber a popularidade como estímulo. “Se alguém me chama de influenciador, tomo como elogio. Porque a verdadeira influência que posso ter é a de fazer com que as pessoas pensem por si próprias”, declarou.
Dados citados na cobertura indicam que o desemprego entre jovens chineses chegou a 21,3%, embora o governo tenha deixado de publicar esses números a partir de meados de 2023. A sensação de pressão e insegurança, refletida em debates públicos e em termos em voga, permanece no centro das discussões que Xiang tem levado a plateias na China e no exterior.
Fonte: G1


