A poucos dias do segundo turno das eleições de 2026 e na proximidade do Dia das Crianças, psicólogas infantis alertam para a importância de conversar sobre política com menores. Segundo as especialistas, o tema é inevitável na rotina das crianças e exige escuta, acolhimento e responsabilidade por parte de pais e responsáveis.
Quem fala e por quê
Eliane Domingues, psicóloga infantil, mestre em educação e doutoranda em psicologia clínica e cultura na Universidade de Brasília (Unb), afirma que a infância não é uma fase neutra ou de espera: as crianças já são atravessadas pela política no cotidiano. Para ela, abordar política não significa fazer doutrinação partidária, mas apresentar noções de convivência, partilha e resolução de conflitos.
Thaís Franco, psicóloga infantil pós-graduanda em “Psicopatologia e Transtornos Psiquiátricos da Infância e Adolescência” e com experiência clínica e no Capsi (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil), reforça que o diálogo é muitas vezes inevitável, porque crianças acessam o tema por meio de telas, escolas e conversas de adultos.
Como conversar: escuta e adequação à idade
Ambas as profissionais recomendam iniciar o diálogo com perguntas para entender o que a criança ouviu e como interpretou: “O que você ouviu sobre isso?” ou “Como você se sentiu?” servem para orientar explicações simples e acolhedoras. É apontado que as respostas devem ser adaptadas à faixa etária, sem exigir que a criança concorde com a visão dos adultos.
O tom e a forma de expressão dos responsáveis são considerados decisivos. Quando adultos adotam linguagem hostil ou reproduzem intolerância, as crianças tendem a mimetizar esse comportamento, o que pode afetar o desenvolvimento emocional e a capacidade de empatia.
Riscos da polarização e da reprodução do ódio
As especialistas destacam preocupação com a reprodução de gestos de hostilidade e ofensas nas escolas e espaços de convivência, resultado do ambiente polarizado. Para Eliane, a entrada da política na vida infantil sob a forma de medo, raiva e rejeição pode adoecer o desenvolvimento psíquico e atrofiar a empatia.
Autonomia, discordância e mediação
Incentivar perguntas e acolher divergências é apontado como indicador de maturação. Eliane afirma que a discordância de uma criança em relação aos pais pode sinalizar desenvolvimento cognitivo e subjetivo; a atitude recomendada é mediar com perguntas reflexivas, não com autoritarismo. Thaís orienta que, se a diferença de opinião gera conflito intenso, buscar apoio psicológico pode ajudar a encontrar outras formas de diálogo.
Influência da escola e dos pares
O contato com colegas, professores e conteúdos extracurriculares é visto como natural e parte do processo de socialização. Pais preocupados com influências externas devem acompanhar o que a criança traz para casa, perguntar sobre o que ouviu e por que determinadas ideias fazem sentido, sem necessariamente corrigir de imediato. O lar deve ser um espaço seguro para testar ideias sem medo de rejeição.
Ídolos políticos e identificação
Eliane lembra que identificação com figuras públicas integra a construção da identidade infantil, mas alerta contra idolatria incondicional, que reduz a capacidade crítica. Recomenda-se humanizar lideranças, mostrando que autoridades são pessoas passíveis de erro e passíveis de cobrança. Thaís acrescenta que pais podem explicar por que admiram alguém, deixando espaço para questionamentos e discordâncias por parte da criança.
Obras infantis indicadas
Democracia e escolhas coletivas: Eleição dos Bichos; A Democracia Pode Ser Assim; O Que é Preciso Pra Ser Rei?
Empatia e combate à exclusão: Invisível (Tom Percival); Tudo Bem Ser Diferente (Todd Parr); O Jardim da Amizade.
Consciência social e ecológica: Conta Comigo (Esther Duflo e Emicida); Greta e os Gigantes.
Pensamento crítico sobre poder e regras sociais: Se os Tubarões Fossem Homens (Bertolt Brecht); O Rei de Quase-Tudo.
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