Falta menos de um mês para o primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, marcado para 8 de novembro, e uma análise de cinco redações que obtiveram nota mil em edições anteriores destaca elementos recorrentes que podem orientar candidatos na reta final.
O g1 selecionou aleatoriamente textos com nota máxima entre 2021 e 2025 e pediu a duas professoras que examinassem a estrutura dos textos: Monika Santos, da Escola SEB Unimaster, avaliou as redações de 2021 a 2023; Daphne Macêdo, revisora do SAS Educação, analisou as de 2024 e 2025. Os textos escolhidos foram: 2021 — Fernanda Quaresma (“Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil”); 2022 — Carina Moura (“Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil”); 2023 — Matheus Almeida Barros (“Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”); 2024 — Rafael Santana Assunção (“Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”); e 2025 — Caio Silva Braga (“Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”).
Repertórios culturais
As análises apontam que as redações usam repertórios culturais — livros, filmes, músicas, conceitos de pensadores e eventos históricos — quando esses elementos se relacionam diretamente ao tema e são explicados. Exemplos citados pelas professoras: Fernanda (2021) recorreu a Vidas Secas, de Graciliano Ramos; Carina (2022) mencionou o Romantismo brasileiro, Boaventura de Sousa Santos e Sueli Carneiro; Matheus (2023) usou Stefan Zweig, Gilberto Dimenstein e Slavoj Žižek; Caio (2025) citou O Karaíba, de Daniel Munduruku, a Lei dos Sexagenários e o filme Vitória; Rafael (2024) valeu-se do álbum Duas Cidades, do BaianaSystem. Em todos os casos, a referência é seguida de explicação que a conecta ao argumento.
Coerência e coesão
As professoras identificaram sequência argumentativa clara: introdução que apresenta o problema e parágrafos de desenvolvimento que exploram aspectos específicos. Há predominância do método dedutivo — afirmação geral seguida de exemplificações — e organização interna dos parágrafos: ideia central, referência, explicação e consequências. O uso de conectivos e a retomada de termos sem repetições desnecessárias também foram destacados como recursos que mantêm a unidade do texto.
Proposta de intervenção
Segundo a Cartilha do Participante do Enem, a proposta de intervenção deve conter cinco elementos: agente, ação, modo/meio, efeito/finalidade e detalhamento, além de respeitar os direitos humanos. As redações analisadas apresentam propostas com esses componentes, ainda que em formatos distintos. Exemplos: Fernanda (2021) sugere que o governo federal, por meio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, amplie o acesso aos cartórios com um projeto nacional articulado aos gestores municipais; Carina (2022) propõe ampliar recursos para fiscalização e preservação dos povos tradicionais, com ações educativas; Matheus (2023) indica fiscalização das leis e investimento em educação; Rafael (2024) propõe estímulo a iniciativas educacionais sobre herança africana e elaboração de nova política nacional de ensino; Caio (2025) aponta o Ministério da Educação como agente de iniciativas de capacitação e inclusão digital, com referência a projeto da UFPE.
As professoras ressaltam que a nota máxima não decorre de um repertório específico, mas da forma como referências, argumentos e intervenções são articulados. Além disso, alertam contra o “repertório de bolso”: citações memorizadas que não se relacionam efetivamente ao tema podem ficar isoladas e não contribuir para a argumentação.
Fonte: G1


