Uma revisão da história do teatro brasileiro coloca em dúvida o consenso de que a expressão cênica nacional teria nascido com os jesuítas no século XVI. O argumento recupera registros da época colonial, com destaque para a Casa da Ópera de Manoel Luiz, como evidência de uma prática teatral anterior e continuada no Rio de Janeiro.
O ponto de partida da reflexão parte de apresentações de Ariano Suassuna, que contestavam a ideia de que o teatro brasileiro teria origem exclusiva em modelos europeus ou em fundações jesuíticas. Suassuna afirmava que o Teatro Grego foi que nasceu na Grécia, mas o Teatro Brasileiro não se resumiria aos atos dos jesuítas. Essas observações motivaram reexames sobre lacunas da cronologia clássica adotada em manuais da área.
Os livros didáticos costumam saltar entre 1560, quando se atribui a Anchieta a criação de um teatro missionário, e 1838, marco associado a Martins Pena e à peça Juiz de Paz na Roça. Esse hiato de cerca de trezentos anos costuma ser explicado pela ausência de documentação oficial e pela falta de incentivo da Coroa Portuguesa à produção literária na colônia. Ainda assim, há relatos e construções que apontam para atividades teatrais regulares nesse intervalo.
A Casa da Ópera de Manoel Luiz, erguida por volta de 1755/60 ao lado do Paço Imperial, funcionou por mais de cinco décadas como o único edifício inteiramente dedicado às artes na então capital do Império Português. Em 1808 foi rebatizada Teatro Régio; em 1813 foi fechada e deu lugar ao Real Teatro de São João, após críticas de Dom João VI que desejava um “teatro decente” e mais “digno de sua real pessoa”.
Registros indicam que a Casa apresentava um repertório variado, com peças de autores como Antônio José, além de música e espetáculos que, embora tivessem pouca ópera formal, atraíam grande público. O local também sofreu intervenções sociais: o Marquês de Lavradio proibiu a entrada de viajantes europeus no teatro diante de relatos negativos sobre as apresentações.
Entre os nomes associados à Casa da Ópera constam artistas negros e pardos, como Maria Joaquina da Lapa — Lapinha — renomada cantora-atriz que alcançou sucesso na Europa, e performers citados em relatos da época como João dos Reis, Capacho, Rosinha e Leandro Joaquim. O maestro e compositor José Maurício Nunes Garcia também apresentou obras no espaço.
Manoel Luiz foi alvo de críticas e sátiras, aparecendo como personagem cômica em textos de época e citado por Martins Pena como símbolo de mau gosto teatral, o que não impede reconhecer o papel singular de sua iniciativa: manter por décadas uma companhia estável com atores, músicos e profissionais técnicos em uma cidade ainda precária.
O roteirista e escritor Celso Tádhei, formado em Artes Cênicas pela UNIRIO, reuniu essas referências e delas criou um romance de ficção intitulado A Casa da Ópera de Manoel Luiz, como tentativa de preencher lacunas documentais por meio da invenção literária. O texto original que inspira esta reportagem é assinado por Celso Tádhei.
Fonte: https://paranaibamais.com.br/colunistas/ponto-de-vista/o-teatro-brasileiro-nao-comecou-onde-dizem/
Por Celso Tádhei
Roteirista, escritor e professor formado em Artes Cênicas pela UNIRIO.
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