Reformas melhoram indicadores, mas não aliviam custo de vida
Em diferentes regiões do mundo, reformas econômicas têm devolvido confiança a mercados e investidores, ao mesmo tempo em que boa parte da população não percebe melhora em sua situação financeira. Na Argentina, onde Javier Milei assumiu a Presidência em 2023, medidas do governo reduziram a inflação de quase 300% para cerca de 33% e ampliaram as importações, enquanto subsídios foram cortados.
Gustavo Raul Perez, comerciante em um bairro próximo a Buenos Aires, relata efeitos distintos: embora a inflação tenha caído, o custo para recompor o estoque da loja triplicou e clientes chegaram com menos poder de compra. “Este plano econômico é para poucos”, afirma Perez, que votou em Milei e vê uma classe média que, segundo ele, deixou de existir nos últimos três anos.
O contraste entre desempenho macroeconômico e sensação popular se repete em outros países emergentes. No Marrocos, investimentos em edifícios comerciais e crescimento do fluxo de investimento estrangeiro direto — que quase dobrou no ano passado — convivem com protestos de jovens e episódios de violência que deixaram mortos. Em julho, centenas de pessoas migraram em direção a um enclave espanhol vizinho.
O engenheiro Anass Sayad, que caminha pela Casablanca Finance City, resume a sensação local: o desenvolvimento ocorre em “duas velocidades”, com grandes projetos e pouca melhora imediata em educação e saúde, embora o governo tenha aumentado os gastos nessas áreas no orçamento de 2026.
No Sri Lanka, a economia saiu da crise e do calote da dívida, mas níveis de pobreza permanecem acima do período pré-crise. A vendedora de alimentos Sirimodara Wadaramge Sriyakanthi, em Colombo, acorda antes das 5h para preparar refeições que ela tenta vender por cerca de US$ 2, mantendo preços baixos para que os clientes possam pagar.
Em nações como Nigéria, Egito e Uzbequistão, a retirada de subsídios aos combustíveis, privatizações e abertura de mercados fazem parte de reformas apoiadas por investidores e por recomendações do Fundo Monetário Internacional (FMI). Essas mudanças, porém, encarecem produtos e podem reduzir renda disponível ao cortar gastos públicos ou permitir maior flutuação cambial.
Analistas apontam riscos sociais. Torbjorn Soltvedt, da Verisk Maplecroft, observa que aumentos de preços de alimentos e energia são sentidos imediatamente pelas populações e podem provocar protestos; a empresa afirma que o risco médio global de agitação social atingiu neste ano o nível mais alto em quase uma década. O ministro das Finanças da Nigéria advertiu que não enfrentar a desigualdade é como “sentar sobre pólvora”. O banco central do Marrocos destaca que o desemprego persistente amplia a distância entre os números macroeconômicos e a percepção popular.
Defensores das medidas afirmam que houve pouco alternativa: Simon Quijano-Evans, da Macro Hive, diz que sem ajustes muitos países correriam o risco de um “abismo” de perda de investimentos. As economias emergentes, hoje, crescem em torno de 4% ao ano, cerca do dobro do ritmo registrado nas economias avançadas — ganho que pode ser comprometido se as reformas forem revertidas e os fluxos de investimento secarem.
Em escala global, a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, alertou que a alta dos preços de combustíveis e alimentos, unida à redução da ajuda internacional, aumenta a pressão sobre países vulneráveis e pediu maior apoio às nações de baixa renda. O Banco Mundial estima que 1,2 bilhão de pessoas em países em desenvolvimento chegarão à idade ativa na próxima década, elevando dúvidas sobre a capacidade de geração de empregos suficiente.
Enquanto investidores e indicadores macroeconômicos mostram sinais de recuperação, a experiência cotidiana de comerciantes, trabalhadores e famílias em diversas nações revela que a transição ainda não trouxe alívio generalizado para o custo de vida.
Fonte: G1


