Lançado em 1968, A Noite dos Mortos-Vivos, de George A. Romero, é lembrado como marco do cinema de zumbis. A interpretação de Duane Jones como Ben, um homem negro que tenta sobreviver no colapso social, confere ao desfecho uma leitura ligada às tensões raciais nos Estados Unidos daquele período, sem necessidade de um discurso explicito sobre racismo para evidenciar desigualdades de tratamento mesmo diante de uma ameaça comum.
Em Despertar dos Mortos (1978), também dirigido por Romero, os zumbis invadem um shopping center e continuam a percorrê-lo como se mantivessem hábitos anteriores ao apocalipse. A cena funciona como sátira de uma sociedade centrada no consumo: os mortos seguem atraídos pelo espaço dos desejos e os sobreviventes encontram no comércio um refúgio cercado por mercadorias que simbolizam conforto, ao mesmo tempo em que repetem comportamentos semelhantes aos zombificados.
No suspense Corra! (2017), de Jordan Peele, a visita de um jovem negro à família branca da namorada revela que a cordialidade aparente pode ocultar controle e objetificação. O filme destaca formas sutis de racismo, quando admiração e apropriação cultural convivem com relações de poder que tratam o outro como objeto.
O Homem Invisível (2020), dirigido por Leigh Whannell, transforma em ameaça a dificuldade de provar violência psicológica. Cecilia, que tenta reconstruir a vida após escapar de um relacionamento abusivo, passa a acreditar que o ex a persegue sem ser visto; a trama evidencia como dinheiro, prestígio e credibilidade dificultam o reconhecimento e a responsabilização do controle e da manipulação.
Produções como Cisne Negro, de Darren Aronofsky, deslocam o terror para a esfera psicológica: a busca obsessiva pela perfeição de Nina, bailarina, expõe competição profissional, cobrança por desempenho, etarismo e a influência de uma relação opressora com a mãe, fatores que levam à deterioração da protagonista.
Em Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott, o perigo não se limita à criatura que ameaça fisicamente a tripulação: a empresa dona da nave prioriza a obtenção do organismo em detrimento da segurança dos funcionários, revelando uma lógica em que vidas podem ser sacrificadas por interesses corporativos e trabalhadores se tornam peças descartáveis.
No brasileiro O Animal Cordial, Gabriela Amaral Almeida utiliza um restaurante para expor hierarquias entre patrões, funcionários e clientes. O estabelecimento passa de espaço de hospitalidade a cenário de confinamento e disputa por controle, mostrando que a cordialidade pode funcionar como fachada para relações profundamente desiguais.
Esses exemplos demonstram que o horror cinematográfico pode emergir diretamente das contradições sociais: racismo, exploração, abuso e culto ao consumo fornecem material narrativo capaz de provocar medo ao revelar verdades desconfortáveis.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais


