23.6 C
Uberlândia
terça-feira, maio 5, 2026

Rede clandestina contrabandeia terminais Starlink para driblar apagão de internet no Irã

Uma rede de contrabando tem levado terminais da Starlink ao Irã para permitir acesso à internet por satélite durante o apagão digital que afeta o país. A informação foi relatada por pessoas que coordenam o envio clandestino e por organizações de defesa dos direitos digitais.

Sahand, nome fictício usado por um dos envolvidos, disse à BBC que o objetivo é que pelo menos uma pessoa consiga se conectar à internet: “Se uma só pessoa conseguir ter acesso à internet, acho que tivemos sucesso e que valeu a pena”, afirmou, visivelmente nervoso mesmo estando fora do Irã. Ele afirmou temer represálias contra familiares e contatos que permanecem dentro do país caso seja identificado pelo regime.

O apagão no Irã já dura mais de dois meses. As autoridades locais afirmam ter desligado amplamente a internet por motivos de segurança após ataques aéreos dos Estados Unidos e de Israel em 28 de fevereiro. O acesso havia sido parcialmente restabelecido um mês antes, depois de outro corte imposto em janeiro, durante a repressão a protestos. Naquele período, a Agência de Notícias Ativistas dos Direitos Humanos (HRANA), com sede nos EUA, relatou mais de 6,5 mil mortos e 53 mil detidos.

Os terminais Starlink, fabricados pela SpaceX, conectam roteadores à rede de satélites da empresa e permitem contornar totalmente a infraestrutura de internet doméstica controlada pelo Estado iraniano. Sahand afirma que diversos usuários podem compartilhar cada terminal simultaneamente. Ele relatou ter enviado cerca de uma dúzia de aparelhos desde janeiro e disse que a operação é “muito complexa” e envolve contrabando pelas fronteiras, sem fornecer detalhes logísticos.

Organizações estimaram números variados sobre o uso da tecnologia no país: a Witness calculou em janeiro que já havia pelo menos 50 mil terminais no Irã, e ativistas afirmam que esse total provavelmente cresceu. Um voluntário vinculado a um canal público em persa no Telegram chamado NasNet disse à BBC que aproximadamente 5 mil terminais foram vendidos via canal nos últimos dois anos e meio.

O uso, compra ou venda desses dispositivos foi criminalizado pelo governo iraniano no ano passado: as penas previstas chegam a até dois anos de prisão; distribuir ou importar mais de dez aparelhos pode resultar em até dez anos de cadeia. A imprensa estatal noticiou diversas prisões relacionadas à venda e compra de terminais, incluindo quatro pessoas detidas no mês anterior — duas delas estrangeiras — sob acusação de importar equipamento de internet via satélite. Alguns casos também foram vinculados, segundo os meios estatais, a posse ilegal de armas ou envio de informações ao inimigo.

Ativistas informaram que o mercado por esses terminais persiste, financiado por iranianos no exterior e por terceiros que apoiam a iniciativa. Sahand afirmou que sua operação não recebe fundos de governos estrangeiros e que os aparelhos são destinados a indivíduos que devem compartilhar informações internacionalmente. Um grupo de defesa dos direitos digitais, que preferiu não se identificar, estimou à BBC que pelo menos 100 pessoas foram detidas por posse de terminais.

O sistema de internet no Irã é descrito em “camadas”: a rede doméstica, controlada pelo Estado, mantém serviços essenciais e mídias estatais; antes dos apagões, havia também acesso global parcialmente bloqueado, com sites como Instagram, Telegram, YouTube e WhatsApp restritos. Muitos usavam VPNs para contornar bloqueios, mas o custo desses serviços aumentou. Atualmente, apenas autoridades selecionadas e alguns jornalistas que trabalham para a imprensa estatal possuem acesso irrestrito, por meio dos chamados “cartões SIM brancos”.

Em 2022, Elon Musk anunciou a ativação da Starlink no Irã após cortes severos de internet durante os protestos provocados pela morte de Mahsa Amini. Desde então, o uso da rede via satélite tem crescido, especialmente em momentos de bloqueio. Com a intensificação das buscas por terminais, Sahand e seus colegas recomendam o uso de VPNs compatíveis com conexão via satélite para manter o anonimato, embora muitos não tenham condições financeiras de pagar por esses serviços em meio à crise econômica.

O governo reconheceu que o apagão afeta negativamente empresas: em janeiro, um ministro afirmou que cada dia de corte custa pelo menos 50 trilhões de rials (US$ 35 milhões, cerca de R$ 175 milhões) à economia. Em resposta, foi lançado um sistema chamado “Internet Pro” para oferecer acesso parcial à internet global a algumas empresas. A porta-voz do governo, Fatemeh Mohajerani, disse que a iniciativa busca “manter a conectividade das empresas durante a crise” e que, quando as condições se normalizarem, a situação da internet também mudará.

Organizações internacionais de defesa dos direitos digitais alertam para o aumento dos apagões: a Access Now informou que ocorreram 313 cortes em 52 países em 2025, o maior número desde o início do monitoramento em 2016. Marwa Fatafta, diretora de defesa e política regional do grupo, declarou que os apagões de comunicação representam uma violação dos direitos humanos e alertou que essa prática está se tornando um “novo normal”. Já Roya Boroumand, diretora-executiva do Centro de Direitos Humanos Abdorrahman Boroumand, disse que o vácuo informativo permite ao Estado divulgar sua narrativa e silenciar vítimas e fontes.

Sahand afirmou que conhece pessoas presas por terem acesso ou por possuírem terminais, embora nem todas tenham adquirido os aparelhos com ele. Outra fonte com nome fictício, Yasmin, contou que um parente foi detido e acusado de espionagem por possuir um terminal Starlink. A BBC procurou a SpaceX e a embaixada iraniana em Londres; não houve resposta até a publicação desta reportagem.

Para alguns envolvidos, o risco é assumido em função da necessidade de documentar e divulgar o que ocorre no país: “Acreditamos que estes terminais devem estar nas mãos de quem realmente precisa deles para fazer a mudança”, disse Sahand.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
Últimas Notícias
Veja também