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terça-feira, maio 5, 2026

Conversas com 150 meninas de 13 a 17 anos mostram pressão social, impacto das redes e medo ligado ao comportamento masculino

Pesquisa qualitativa com adolescentes aponta influência de meninos, redes sociais e queda na participação escolar

A jornalista Catherine Carr, em série da BBC Rádio 4 chamada About the Girls, conversou com cerca de 150 meninas, a maioria entre 13 e 17 anos, para entender como é ser adolescente em 2025/26. As entrevistas ocorreram em diversos locais do Reino Unido, incluindo um clube juvenil em Carmarthen, no País de Gales, onde um grupo do clube DRMZ recebeu a equipe com jogos, pizza e conversas abertas.

O que emergiu de forma recorrente foi a percepção de que a experiência de ser menina ainda é fortemente filtrada pelo olhar e pelo comportamento dos garotos. Muitas das entrevistadas iniciavam respostas relacionando suas atitudes às reações masculinas — tema que apareceu em praticamente todas as conversas. As jovens disseram evitar “ocupar espaço”: procuram falar menos e se comportar de forma mais contida quando há meninos presentes, por medo de serem consideradas “intensas” ou de chamar atenção indesejada.

Profissionais ouvidas no processo confirmaram esse padrão. Alison Harbor, gerente do centro juvenil visitado em Carmarthen, observou que as meninas costumam internalizar problemas, ainda que naquele dia tenham falado com liberdade. A professora de psicologia da educação Ola Demkowicz, do Institute of Education de Manchester, afirmou que há maiores expectativas de comportamento sobre as garotas, que frequentemente são cobradas por uma aparência mais madura e por não fazer barulho, enquanto meninos recebem tolerância por comportamentos similares.

As entrevistadas também relataram experiências de assédio e sexualização constantes na rua e online. Pesquisa da organização britânica Girlguiding mostra que 68% das meninas mudam seu comportamento diário para evitar assédio sexual, e quase todas as jovens com que Carr falou disseram já ter recebido comentários de cunho sexual. A pesquisadora Hannah Yelin, da Oxford Brookes University, descreve a consciência das meninas sobre como o escrutínio a que são submetidas costuma ser sexualizado e potencialmente perigoso.

Na escola, as meninas relataram episódios de misoginia por parte de colegas, como pedidos para “voltar para a cozinha”, e mencionaram temor pela influência de discursos e comportamentos veiculados pela internet. Sindicatos de professores alertaram para uma crescente crise de masculinidade nas escolas do Reino Unido; quase 25% das professoras consultadas disseram ter sido alvo de abusos misóginos por alunos no último ano.

Como reação, em algumas escolas as próprias alunas têm organizado clubes para discutir desigualdade de gênero, violência doméstica, menstruação, sexualidade e saúde mental. Ainda assim, gestores apontam aumento do absenteísmo entre meninas: a taxa de ausência grave (faltar a 50% ou mais das aulas) subiu de 6% em 2017/18 para 13% em 2024/25, com incidência maior entre alunas que têm direito à merenda gratuita. Problemas de saúde mental, especialmente ansiedade, e responsabilidades de cuidado na família foram citados como fatores para faltas à escola.

Apesar desses desafios, as entrevistadas demonstraram ambição e planos para o futuro — desde carreiras científicas até esportivas — e reconheceram avanços históricos para as mulheres. Ao mesmo tempo, elas apontaram como redes sociais e conteúdos online às vezes freiam ou distorcem esse progresso, promovendo padrões de beleza e papéis de gênero prejudiciais, bem como a circulação de opiniões de adultos sobre “como deveriam ser as mulheres”.

As amigas e as redes sociais moldam grande parte das relações. Muitas meninas disseram temer ser excluídas se não acompanharem as conversas online e relataram dificuldades em lidar com assédio e exposição de conteúdo sexual nos aplicativos. Porém, descreveram também o valor de espaços presenciais — clubes de esporte, dança ou atividades — onde podem ser barulhentas e ocupar espaço sem o mesmo receio.

Relatórios citados durante a apuração reforçam o papel crescente das telas: pesquisa da organização OnSide, publicada em 2025, indicou que 76% dos jovens passam a maior parte do tempo livre em frente às telas e 48% passam esse tempo dentro do quarto. As entrevistadas perguntam quais espaços reais poderiam substituir as redes sociais como locais de sociabilidade segura e livre.

Além das conversas com meninas, Carr relacionou a motivação do trabalho a eventos e debates recentes — pandemia de covid-19, movimento #MeToo, repercussão do influenciador misógino Andrew Tate e a divulgação dos arquivos de Epstein — que deram urgência à investigação sobre como adolescentes veem gênero, segurança e identidade em 2025/26.

Fonte: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2026/05/05/o-que-aprendi-sobre-adolescentes-apos-conversar-com-150-meninas-de-13-a-17-anos.ghtml

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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