TRANSMISSÃO: Record
Pesquisador critica efeito de curto prazo do programa e alerta para padrão de consumo por crédito
O geógrafo Kauê Lopes dos Santos, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor do livro Parcelado (Editora Fósforo), afirma que programas de renegociação de dívidas como o Desenrola 2.0, lançado oficialmente pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva em 4 de maio de 2026, podem aliviar a situação das famílias no curtíssimo prazo, mas também estimular uma cultura de renegociação que não enfrenta as causas estruturais do endividamento recorde no país.
Segundo Lopes dos Santos, que pesquisa a cultura do parcelamento nas periferias de São Paulo, iniciativas como o Desenrola mostram atenção do poder público ao problema e funcionam como uma injeção de renda que permite o retorno ao consumo. No entanto, ele ressalta que muitas políticas desse tipo têm impacto apenas de curto e médio prazo e tendem a “complexificar o jogo” ao criar uma lógica de solução temporária em vez de atacar fatores mais profundos.
O programa lançado nesta semana prevê condições facilitadas para quitar dívidas, com descontos e juros reduzidos, e permite adesão de pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos, equivale a R$ 8.105. Trata-se de uma reedição do pacote aplicado entre 2023 e 2024; bancos informaram que devem iniciar operações assim que ajustarem processos internos.
Os dados oficiais citados pelo pesquisador mostram a dimensão do problema: a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), apontou que 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas em março — um recorde na série histórica. Pesquisa da Serasa indicou que, em fevereiro, 81,7 milhões de brasileiros estavam inadimplentes, o equivalente a 49,9% da população adulta, com dívida média por pessoa de R$ 6.598,13.
Lopes dos Santos descreve uma dinâmica em que o consumo se organiza em torno do parcelamento: a difusão de compras em prestações longas, com taxas elevadas, tem aprofundado o comprometimento do orçamento doméstico. O pesquisador recorda que seu interesse pelo tema surgiu em pesquisa de mestrado na FAU-USP, ao constatar contraste entre moradias com infraestrutura precária e a presença de bens considerados modernos, adquiridos via crédito.
Na análise do autor, o parcelamento alcança itens básicos como alimentos e roupas e, em casos extremos, leva pessoas a buscar mais de um emprego para evitar a insolvência. Ele também aponta a expansão das plataformas de apostas (bets) como fator que agrava o endividamento, forçando o uso de modalidades de crédito com juros mais altos, como cheque especial e cartão.
O pesquisador avalia que o Desenrola 1, de 2023, teve papel relevante como primeiro exercício de atenção ao tema e serviu de garantia para operações bancárias, mas advertiu que entre a primeira edição e o Desenrola 2.0 mais de 9 milhões de pessoas regressaram à condição de superendividamento. Sobre medidas anunciadas, ele cita a controvérsia em torno do uso de até 20% do saldo do FGTS para quitar dívidas, tema que enfrenta resistência de setores como a construção civil, preocupados com a destinação do fundo.
Questionado sobre restrições às apostas, o pesquisador considera positiva a proposta presidencial de bloquear a participação em bets por um ano para quem aderir ao Desenrola, entendendo a ação como um exercício de conscientização e lembrando que as apostas costumam afetar de forma desproporcional as populações mais vulneráveis.
O conteúdo desta reportagem foi produzido com base em entrevista concedida por Kauê Lopes dos Santos e em dados de pesquisas citadas.
Fonte: G1


