Uma baleia-jubarte registrada no Banco de Abrolhos, na costa da Bahia, em 2003 foi novamente identificada 22 anos depois em Hervey Bay, no estado australiano de Queensland, depois de uma travessia estimada em aproximadamente 15.100 km. O caso, descrito em artigo da revista Royal Society Open Science, representa possivelmente a maior distância conhecida entre dois avistamentos da espécie.
Travessia inédita entre oceanos
O deslocamento calculado entre os pontos supera em cerca de 15% o recorde anterior para baleias-jubarte. De acordo com os autores do estudo, trata-se do primeiro registro de troca em ambas as direções entre populações reprodutivas do Atlântico Sul e do Pacífico Sul. Movimentos desse tipo são considerados pouco comuns: na análise de mais de quatro décadas de registros, os cientistas identificaram apenas dois casos semelhantes.
Além do animal observado entre a Bahia e a Austrália, a equipe encontrou outro exemplar fotografado em Hervey Bay em 2007 e 2013 que depois foi visto no litoral de São Paulo. O trajeto estimado para esse segundo indivíduo foi de cerca de 14.200 km.
Como foi feita a identificação
A correspondência entre as fotografias foi realizada por meio da plataforma internacional Happywhale, que reúne imagens enviadas por pesquisadores e cidadãos. O sistema compara registros da face ventral da cauda das baleias — considerada uma “impressão digital” individual — avaliando padrões de pigmentação, cicatrizes e o contorno das nadadeiras. Um algoritmo com suporte de inteligência artificial cruza milhares de imagens em busca de coincidências entre diferentes regiões.
Base de dados e frequência
Para o estudo, foram analisadas 19.283 fotografias coletadas entre 1984 e 2025, abrangendo a América Latina e a costa leste da Austrália. Mesmo com este amplo banco de dados, apenas duas jubartes apresentaram deslocamentos entre os dois continentes, o que corresponde a cerca de 0,01% dos indivíduos identificados pelos pesquisadores. Os intervalos de seis e 22 anos entre os registros apontam que esses movimentos não parecem integrar uma migração regular.
Rotas, incertezas e possíveis causas
Os cientistas ressaltam que a rota exata percorrida pelas baleias permanece desconhecida; a distância divulgada é uma estimativa em linha reta entre os pontos e as trajetórias reais pelos oceanos podem ser mais longas. De forma tradicional, as populações australianas migram entre áreas de alimentação próximas à Antártida e zonas de reprodução junto à Grande Barreira de Corais, cumprindo um percurso anual de cerca de 10.000 km de ida e volta.
Entre as hipóteses levantadas pelos autores para explicar esses deslocamentos estão mudanças climáticas que alterem a distribuição do krill na região antártica, o que poderia modificar rotas e aumentar o contato entre grupos de diferentes oceanos, e o crescimento populacional das jubartes após o fim da caça comercial em larga escala, favorecendo encontros antes raros.
Fonte: Paranaibamais


