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segunda-feira, junho 1, 2026

Tarefa de seleção de Wason: o experimento simples que revelou limites do raciocínio humano

Experimento de Wason expõe tendência humana à busca de confirmação

Peter Wason, psicólogo britânico, criou há cerca de 60 anos um teste que passou a ser um dos paradigmas mais estudados sobre o raciocínio humano. A chamada Tarefa de Seleção de Wason consiste em um problema de lógica aparentemente simples, mas cujos resultados mostraram divergências sistemáticas entre a lógica formal e o comportamento real das pessoas.

No enunciado clássico, o observador vê quatro cartas com uma face visível contendo as letras E e K e os números 4 e 7. Informa-se a regra: “se uma carta tem uma vogal de um lado, então tem um número par do outro”. A pergunta é: quais cartas devem ser viradas para checar se a regra é verdadeira?

A solução lógica correta é virar a carta com E e a com 7. A carta E pode confirmar ou refutar a regra dependendo do que estiver do outro lado; a carta 7 é decisiva porque, sendo ímpar, um lado com vogal a tornaria falsa. A carta K é irrelevante para essa regra e a carta 4 só pode confirmar, não refutar. No experimento original, apenas cerca de 10% dos participantes encontraram a resposta correta; em repetições, o padrão típico foi aproximadamente 45% escolhendo E+4, 35% escolhendo apenas E e apenas cerca de 4% escolhendo corretamente E+7.

Wason publicou o problema pela primeira vez em 1966. Seu trabalho transformou intuições filosóficas sobre as falhas do raciocínio em formuláveis e testáveis em laboratório. Em 1968, ele observou que a tarefa revela uma tendência à irracionalidade na argumentação, dado o elevado número de erros dos participantes.

Antes da tarefa de seleção, Wason já havia explorado vieses semelhantes com o problema “2-4-6”. Nele, os participantes recebiam a sequência 2–4–6 e deviam descobrir a regra geradora propondo outras sequências. A maioria formulava hipóteses como “somar 2” e testava exemplos que confirmavam essas hipóteses, raramente propondo sequências que pudessem refutá-las. A regra real era simplesmente “números em ordem crescente”, o que só ficou claro quando os participantes testaram casos que pudessem gerar um “não”.

Décadas posteriores mostraram outra peculiaridade: quando a mesma lógica é apresentada em contextos cotidianos, o desempenho melhora muito. Em uma versão do problema passada em um bar, com cartas mostrando “Cerveja”, “Refrigerante”, “20” e “17”, e a regra “se a pessoa bebe álcool, deve ter mais de 18 anos”, a maioria aponta corretamente para Cerveja e 17 anos. Essa dissociação entre formas abstratas e contextos sociais motivou debates teóricos.

Explicações propostas incluem a hipótese da psicologia evolucionista, defendida por Leda Cosmides, segundo a qual o raciocínio humano estaria adaptado para detectar trapaceiros em interações sociais; a ideia de racionalidade limitada de Herbert A. Simon; e as pesquisas de Daniel Kahneman e Amos Tversky sobre atalhos mentais. A tarefa de Wason passou a ter grande influência na psicologia cognitiva, na filosofia da ciência — por ilustrar a assimetria entre confirmação e falsificação discutida por Karl Popper — e na economia comportamental.

Mais recentemente, versões da tarefa são usadas para avaliar modelos de linguagem em inteligência artificial: os sistemas mais avançados resolvem facilmente a versão abstrata, mas por vezes cometem erros similares aos humanos quando o conteúdo muda sutilmente. A Tarefa de Seleção de Wason segue sendo, assim, um instrumento central para investigar por que e em que condições o raciocínio humano falha ou se ajusta.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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