Plataformas de previsão proibidas no país são difundidas como termômetro político
Apesar do bloqueio de ao menos 27 sites de mercado de previsão determinado pelo governo em abril, plataformas como Polymarket e Kalshi seguem sendo divulgadas nas redes sociais brasileiras como uma alternativa às pesquisas eleitorais tradicionais. A circulação é impulsionada, segundo levantamento da BBC News Brasil, por políticos e influenciadores alinhados à direita, que apresentam os números das apostas como contraponto a institutos de pesquisa.
A análise citada pela reportagem identificou aumento nas menções em português a essas plataformas em 2026 e verificou que as publicações com maior engajamento — curtidas, comentários e compartilhamentos — vieram, em sua maioria, de contas ligadas ao bolsonarismo. Entre as postagens com mais repercussão está um post do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, publicado em 6 de maio de 2026, criticando a proibição e afirmando que Flávio Bolsonaro estaria na frente na disputa presidencial. Outro post com grande alcance foi do empresário Paulo Figueiredo, em 9 de maio, que alegou histórico de acerto de 90% em mercados de alta liquidez.
No entanto, o cenário das apostas no Polymarket mudou no fim de maio, quando posts dando conta de uma vantagem de Luiz Inácio Lula da Silva ganharam mais engajamento. A mudança nas apostas foi associada à divulgação de áudios envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, com pedidos de financiamento para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
Na última semana de maio, contratos relacionados à eleição presidencial de 2026 no Polymarket totalizavam cerca de US$ 86,8 milhões em volume negociado. Entre os que mais movimentaram recursos estavam Lula (US$ 5,79 milhões), Flávio Bolsonaro (US$ 5,98 milhões) e Renan Santos (US$ 5,80 milhões). A plataforma apontava cerca de 44% de probabilidade de vitória para Lula, 28% para Flávio Bolsonaro e 13% para Renan Santos. Como o acesso foi bloqueado no Brasil, usuários recorrem a serviços de VPN para acessar os sites.
Especialistas ouvidos destacam que pesquisas eleitorais e mercados de apostas não medem a mesma coisa. O estatístico Raphael Nishimura afirmou que pesquisas estimam intenção de voto, enquanto as plataformas calculam a probabilidade de vitória com base no quanto os participantes estão dispostos a pagar. Ele e outros analistas também ressaltaram que esses mercados reagem em tempo real a notícias, mas podem ser influenciados por operadores com muito capital, uso de dados em tempo real, servidores e automação.
Levantamentos mostraram risco de concentração de ganhos: segundo o Wall Street Journal, 67% dos lucros da Polymarket estariam concentrados em 0,1% das contas, com quase US$ 500 milhões nas mãos de menos de 2.000 usuários. A Bloomberg indicou que, entre início de 2025 e abril de 2026, o número de contas que perderam dinheiro após apostar mais de US$ 1.000 foi quase o dobro das que lucraram. Casos de uso de informação privilegiada também foram citados: o Departamento de Justiça dos Estados Unidos denunciou Gannon Ken Van Dyke por suposto uso de informação interna, com ganho superior a US$ 409 mil; ele se declarou inocente.
O bloqueio no Brasil decorreu de resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN). O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o setor viveu “um espaço de anarquia” e que esse tipo de aposta não deve ser tratado como derivativo regular no país. No Brasil, permanecem permitidas apostas em eventos esportivos e jogos online com regras definidas. Segundo reportagens, empresas do mercado regulado teriam pressionado o governo para o bloqueio, argumentando que plataformas estrangeiras não pagaram outorgas exigidas no país. A fundadora da Kalshi disse, em entrevista ao Valor Econômico, que a empresa estuda abrir escritório no Brasil.
Para especialistas em economia, a questão principal é regulatória: plataformas de previsão, na avaliação desses analistas, driblam normas do mercado financeiro, o que motivou a proibição enquanto o setor regulado organiza a atividade.
Fonte: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2026/06/01/polymarket-kalshi-pesquisas-eleitorais.ghtml


