O desperdício de alimentos no Brasil ocorre em várias etapas da cadeia produtiva e contrasta com a realidade de fome enfrentada por parte da população. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o mundo desperdiça cerca de 1 bilhão de toneladas de alimentos por ano. No país, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que quase 7 milhões de pessoas passam fome, e 18,9 milhões de famílias vivem algum grau de insegurança alimentar.
Do campo às perdas
Gustavo Porpino, pesquisador da Embrapa Alimentos e Territórios que também colabora com iniciativas da ONU, aponta várias causas das perdas nas lavouras. Entre elas estão a falta de acesso dos agricultores a mercados — especialmente crítica para culturas muito perecíveis, como alface, morango e banana —, mudanças climáticas que provocam temperaturas extremas, secas ou chuvas intensas, pragas e doenças que dizimam plantações, e a ausência de tecnologia que poderia ampliar a conservação e a eficiência na colheita.
Porpino também destaca o padrão estético exigido pelo mercado, que exclui produtos com tamanho ou aparência fora do padrão, e picos de produção em que a oferta supera a demanda e os preços não compensam a colheita. Problemas logísticos, como transporte sem refrigeração adequada e embalagens inadequadas, também contribuem para as perdas.
Varejo e restaurantes
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) estima que varejo e restaurantes são responsáveis por 427 milhões de toneladas de alimentos desperdiçados. No varejo, práticas como a venda em consignação podem transferir o risco para o produtor: se um supermercado recebe 500 caixinhas de morango e vende 300, paga apenas pelos 300 vendidos, enquanto as 200 restantes estragam na loja, explica Porpino.
Para reduzir esse desperdício, há iniciativas de doação em pontos de venda que repassam excedentes em boas condições para organizações que triagem e redistribuem os alimentos. O g1 acompanhou projetos desse tipo em Campinas e São Paulo, incluindo o Instituto de Solidariedade para Programas de Alimentação (ISA) e o Sesc Mesa Brasil.
Na casa do consumidor
Segundo o Pnuma, a maior parte do desperdício ocorre nas residências: 631 milhões de toneladas em 2022. Além de chegar das prateleiras em condições frágeis — principalmente para consumidores que compram em locais mais baratos —, o desperdício doméstico é influenciado por fatores culturais. Maria Siqueira, cofundadora e diretora-executiva do Pacto Contra a Fome, cita o gosto pela fartura, que leva a compras além do consumo real, e o hábito de estocar alimentos como proteção contra inflação e oscilação de preços, resultando em itens esquecidos.
Impactos e soluções
O desperdício traz consequências econômicas e ambientais: além da perda financeira — o Banco Mundial estimou em US$ 1 trilhão por ano o valor de alimentos desperdiçados em 2020 —, alimentos em decomposição geram gases de efeito estufa como metano e produzem chorume que contamina o lençol freático. Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que investimentos em infraestrutura, tecnologia e técnicas de produção podem reduzir muitas das perdas no campo. O g1 também mostrou exemplos práticos, como citriculturas com desperdício zero em Santa Maria da Serra e Engenheiro Coelho (SP), e iniciativas que transformam resíduos alimentares em adubo.
Esta reportagem integra o sexto episódio da série “PF: Prato do Futuro”, do g1, que apresenta soluções para desafios da produção de alimentos no Brasil.


