O cinema brasileiro celebra avanços significativos em visibilidade e reconhecimento internacional, ao mesmo tempo em que enfrenta desafios estruturais para consolidar uma indústria sustentável. Nesta sexta-feira (19), Dia do Cinema Nacional, a discussão se volta ao passado, às conquistas recentes — incluindo prêmios em festivais e o Oscar — e às barreiras que ainda impedem uma expansão mais ampla da produção audiovisual no país.
Reconhecimento internacional e trajetória histórica
Produções brasileiras voltaram a ganhar destaque em premiações como Cannes, Veneza e na própria Academia de Hollywood. O filme Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, recebeu o Oscar de Melhor Filme Internacional e já havia conquistado o prêmio equivalente no Sindicato dos Roteiristas e Produtores dos Estados Unidos (WGA). Outro título recente de destaque é O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, também indicado ao Oscar, evidenciando a presença crescente do país no circuito global.
A trajetória de indicações inclui momentos anteriores: em 1999, Fernanda Montenegro tornou-se a primeira brasileira indicada ao Oscar de Melhor Atriz por Central do Brasil. Anos depois, sua filha Fernanda Torres também foi indicada à mesma categoria por Ainda Estou Aqui.
Quem conta as histórias e quais são os entraves
Para a atriz e diretora Eliana Fonseca, a principal limitação histórica do cinema nacional foi a falta de percepção do setor como indústria. “O que mais me choca na história do cinema brasileiro é que nunca tivemos a percepção do cinema como indústria. É uma atividade que gera empregos, movimenta a economia e ainda leva a imagem do Brasil para o mundo”, afirma. Ela lembra que momentos gloriosos da cinematografia não foram aproveitados para criar uma estrutura permanente de produção.
A cineasta Vitória Teixeira, que defende a democratização do acesso ao audiovisual, explica que um filme nasce da vontade de contar e das referências de cada realizador. Vitória ressalta a importância de editais e programas de fomento para viabilizar projetos de quem não tem condições financeiras favoráveis. Ela também identifica duas dificuldades centrais: financiamento, dado o alto custo de produção, e a circulação das obras para que cheguem ao público.
Mulheres e periferias no cinema
Vitória chama atenção para as barreiras que ainda afetam mulheres no mercado audiovisual, sobretudo em áreas técnicas como fotografia e edição. Ela relata sua própria trajetória: moradora da Brasilândia, periferia de São Paulo, participou de um curso gratuito em 2019 e, a partir daí, integrou o coletivo Várias Fita, cujas produções foram exibidas em diversos festivais e chegaram a eventos internacionais. Um curta do grupo representou o Brasil em um evento da ONU no Egito.
Entre os trabalhos dirigidos por Vitória estão os curtas Além das Pipas e Faustina – Música para viver. A cineasta também atuou em intercâmbios, integrou equipes na Colômbia, participou de centro de pesquisa audiovisual da USP e trabalhou no Departamento de Arte da série Brasil 70, produzida pela Netflix.
Títulos históricos e lista contemporânea
Ao percorrer a história do cinema brasileiro, nomes e filmes que marcaram diferentes épocas são frequentemente citados. Eliana Fonseca destaca obras como O Pagador de Promessas, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Central do Brasil, Cidade de Deus e Carlota Joaquina como marcos de várias fases da cinematografia nacional. Mais recentemente, Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto reforçaram a capacidade do país de dialogar com públicos globais.
O jornalista e crítico Vinícius Lemos preparou uma seleção de cinco filmes essenciais. Ele lembra também do ranking divulgado pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE), que apontou Limite (1931), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Vidas Secas (1963), Cabra Marcado para Morrer (1984) e Terra em Transe (1967) entre os mais importantes.
Na lista de Lemos aparecem, entre outros títulos, Limite (1931), Ilha das Flores (1989), O Pagador de Promessas (1962), Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto (2025), tendo Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund, como marco contemporâneo que projetou o cinema nacional internacionalmente.
Desafios para consolidar uma indústria
Eliana Fonseca sintetiza o dilema: é preciso investimento e formação de público. “É uma cobra mordendo o próprio rabo. Para fazer bons filmes você precisa de investimento. Para conseguir investimento você precisa de público. E para formar público você precisa de bons filmes.” O caminho apontado por realizadores e críticos passa por transformar o reconhecimento obtido em estrutura, ampliar os incentivos, fortalecer a distribuição e abrir espaço para novos talentos de diferentes regiões e classes.
Fonte: Paranaibamais


