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quinta-feira, agosto 6, 2026

Amizade no trabalho pode favorecer desempenho, mas exige limites para não prejudicar decisões profissionais

Amizades construídas no ambiente de trabalho trazem benefícios à colaboração e ao bem-estar dos profissionais, mas especialistas alertam para cuidados necessários para evitar que relações pessoais interfiram em decisões e avaliações.

Trends em redes sociais, como o TikTok, têm mostrado histórias de colegas que viraram amigos e mantiveram parcerias profissionais. É o caso das biólogas marinhas Mônica Pontalti e Carolina Iozzi Relvas, que se conheceram em 2017 durante o primeiro embarque de Carolina como observadora de mamíferos marinhos. A convivência durante os 45 dias no navio transformou a relação em parceria: Carolina hoje figura entre as principais instrutoras da empresa de treinamentos criada por Mônica, e as duas já ministraram cursos presenciais em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, além de formações online.

Outro exemplo citada pela reportagem são as engenheiras Catherine Ferreira e Lívia Cipriano Magalhães, que se aproximaram em um treinamento a bordo, quando Lívia era instrutora de Catherine. Apesar de atuarem hoje em áreas distintas dentro da mesma empresa e embarcarem raramente juntas, mantêm a proximidade fora do expediente, organizando viagens e encontros com colegas.

Limites entre amizade e profissionalismo

Especialistas consultados afirmam que vínculos no trabalho favorecem a troca de conhecimento, agilizam a comunicação e contribuem para o desenvolvimento da carreira por meio do networking. Muller Gomes, gerente da consultoria de recrutamento Robert Half, destaca que essas relações fazem parte do chamado “salário emocional”, elementos intangíveis que influenciam a permanência e a satisfação no emprego.

Entretanto, alertam que a amizade não deve sobrepor critérios técnicos em decisões como avaliações, promoções, distribuição de tarefas e feedbacks. Eliane Aere, presidente da ABRH-SP, aponta sinais de que o limite foi ultrapassado: favorecimento, tratamento desigual entre colegas e formação de “panelinhas”. Lucimara Costa, diretora de Recursos Humanos da Nexti, reforça que deixar de dar um feedback necessário para não magoar um amigo é indicativo de problema.

Dados de pesquisas

Levantamentos apontam a presença e a relevância das amizades no trabalho. Uma pesquisa do Indeed Brasil, com 1.065 trabalhadores realizada em janeiro de 2025, indicou que 57% acreditam que amizades melhoram a colaboração entre equipes; 52% dizem que tornam o trabalho mais agradável; 50% associam um colega para conversar à redução do estresse; 45% relacionam amizades a maior motivação e produtividade; 7% afirmam que não influenciam o desempenho; e 54% declaram ter um melhor amigo no trabalho.

O Índice de Confiança do Trabalhador, do LinkedIn, aponta que 55% dos profissionais brasileiros têm amigos no ambiente profissional, mas apenas 35% consideram essas relações indispensáveis. Pesquisa da KPMG nos Estados Unidos, com 1.019 trabalhadores, mostrou que 87% consideram muito importante ter amigos próximos no trabalho, 84% afirmam que esses vínculos são essenciais para a saúde mental, e 57% aceitariam um emprego com salário 10% menor em uma empresa que favorecesse amizades próximas em vez de outra que pagasse 10% a mais sem oferecer esse tipo de conexão. Camilla Pádua, sócia-líder da área de consultoria em gestão de pessoas da KPMG no Brasil, observa que amizades criam confiança e aumentam a sensação de pertencimento.

Ao mesmo tempo, pesquisas sobre solidão no trabalho mostram preocupação: levantamento da Pluxee com mais de 2 mil brasileiros indica que 47% se sentem sozinhos no trabalho frequentemente ou às vezes; 78% consideram essencial ter amizades verdadeiras no ambiente profissional; e, em uma escala de 1 a 5, a influência das amizades na decisão de permanecer na empresa obteve nota média de 3,39. Especialistas como Marcela Zaidem, da consultoria Cultura na Prática, alertam para a “solidão corporativa” e ressaltam que pertencimento depende de confiança, respeito, segurança psicológica e qualidade da liderança. Bruno Gonçalves acrescenta que a falta de vínculos está associada a maior absenteísmo, redução da criatividade e queda do engajamento.

Recomendações para manter relações saudáveis

Profissionais ouvidos indicam medidas práticas para preservar a relação entre amizade e profissionalismo:

  • Evitar privilégios a colegas próximos em promoções, avaliações ou distribuição de tarefas;
  • Respeitar limites pessoais dos demais profissionais;
  • Separar critérios técnicos das relações pessoais ao tomar decisões;
  • Manter imparcialidade em feedbacks e processos de avaliação;
  • Preservar informações confidenciais;
  • Impedir que conflitos pessoais afetem as atividades da equipe.

Também foram destacados sinais de alerta para quando a amizade começa a prejudicar o trabalho: evitar dar feedback por medo de perder a amizade; decisões baseadas em afinidade e não em mérito; compartilhamento de informações confidenciais fora do contexto profissional; percepção de favorecimento ou formação de grupos fechados; e interferência de conflitos pessoais no desempenho da equipe. Para Muller Gomes, a palavra-chave é maturidade: reconhecer até que ponto a amizade contribui e quando passa a atrapalhar.

G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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