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sábado, maio 9, 2026

Associação de importadores chineses de Tianjin se compromete a comprar 50 mil toneladas de carne bovina brasileira certificada e sem desmatamento

Uma associação de importadores de Tianjin, na China, anunciou compromisso de adquirir 50 mil toneladas de carne bovina brasileira certificada e livre de desmatamento até o fim do ano, movimento que pode indicar disposição do mercado chinês a pagar por cadeias de suprimento mais sustentáveis.

Quem lidera a iniciativa é Xing Yanling, presidente da Associação da Indústria de Carnes de Tianjin, entidade que reúne importadores responsáveis por cerca de 40% das compras chinesas de carne bovina vindas do Brasil. Em postagem no WeChat sobre a visita que fez à Amazônia em abril, Xing descreveu a experiência de encontrar vastas áreas de floresta.

O volume comprometido equivale a aproximadamente 4,5% do total que os exportadores brasileiros de carne bovina devem vender ao mercado chinês neste ano. Os importadores de Tianjin informaram que aceitarão pagar até 10% a mais por produto de frigoríficos que comprovem que as fazendas fornecedoras não têm qualquer ligação com desmatamento, legal ou ilegal, nem com trabalho escravo.

O projeto comercializará a carne com o selo “Beef on Track”, desenvolvido pela ONG brasileira Imaflora. O selo prevê quatro níveis de conformidade, de acordo com o grau de rastreabilidade na cadeia e com a comprovação de regularização legal das fazendas.

Especialistas dizem que a cadeia da carne bovina está mais preparada para mudanças desse tipo do que outras commodities. Andre Vasconcelos, chefe de engajamento global da Trase, afirma que há consciência de que a carne bovina brasileira é a mercadoria agrícola mais associada ao desmatamento entre os produtos importados pela China. Dados do MapBiomas indicam que cerca de 90% da área desmatada na Amazônia é convertida em pasto para gado logo após o corte das árvores.

O compromisso de Tianjin ocorre em meio a sinais do governo chinês sobre ações em relação ao impacto ambiental do comércio: em 2019 a China alterou a lei florestal para proibir comércio de madeira ilegal; em 2023 assinou um compromisso conjunto com o Brasil para acabar com o desmatamento ilegal impulsionado pelo comércio; e, a partir do ano passado, a COFCO, estatal chinesa de comércio exterior, anunciou esforços para eliminar o desmatamento de sua cadeia de suprimentos.

Apesar do interesse, há limitações práticas. O sistema brasileiro de rastreabilidade ainda é frágil: ele se baseia em documentos de transporte de gado que, segundo promotores, podem ser fraudados para ocultar irregularidades — prática conhecida como “lavagem de gado” — e melhorias podem levar anos.

Durante a visita da delegação de Tianjin à fazenda Carioca, em Castanhal (PA), o proprietário Altair Burlamaqui mostrou áreas de floresta e o rebanho. Segundo relatos, os visitantes demonstraram entusiasmo e consultaram se ele vislumbrava vender carne associada à proteção da Amazônia, proposta que Burlamaqui descreveu como empolgante e avassaladora.

No setor, a iniciativa teve reação mista. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) manifestou insatisfação, segundo fontes que falaram à Reuters, e alertou para o risco de novas certificações criarem barreiras num mercado já restrito. A China impôs cotas neste ano para proteger a indústria doméstica; o limite estabelecido é de 1,1 milhão de toneladas, que o Brasil deve alcançar até o fim do próximo mês. Importações feitas após esse limite ficam sujeitas a imposto de 55%, o que pode atrasar os planos de Tianjin, que prevê importar o primeiro contêiner certificado justamente nesse período.

A certificação Beef on Track deve ficar disponível para adoção por frigoríficos, supermercados e importadores até o fim do ano. O nível mais básico do padrão é comparável ao usado pelo Ministério Público Federal para verificar conformidade ambiental e trabalhista de fazendas que fornecem diretamente à indústria. O programa abrange fornecedores responsáveis por cerca de 2,7 milhões de toneladas de carne bovina por ano — cerca de um quinto da produção brasileira e quase o dobro das importações chinesas registradas no ano passado. A carne que Tianjin pretende importar fará parte desse volume certificado. Até o momento, nenhum frigorífico brasileiro anunciou adoção formal da certificação.

Para a Imaflora, a certificação pode criar oportunidades em vez de se tornar um obstáculo, reconhecendo esforços já em andamento pelas empresas para cumprir compromissos de sustentabilidade e rastreabilidade, conforme afirma Marina Guyot, gerente de políticas da ONG.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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