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quarta-feira, setembro 23, 2026

Brasil é há décadas responsável por superávit histórico dos EUA, mesmo sob novas tarifas

TRANSMISSÃO: Record

Brasil acumula déficit em comércio de bens com os EUA ao longo de quatro décadas

O Brasil tem sido, por décadas, responsável por um superávit expressivo nos fluxos comerciais que beneficiam os Estados Unidos, apesar das recentes medidas tarifárias aplicadas por Washington. Em uma série histórica de 41 anos do Departamento do Censo dos EUA, os americanos registraram saldos positivos em 26 anos, resultando em um déficit brasileiro de US$ 144 bilhões (R$ 734 bilhões) no comércio de bens ao longo de quatro décadas.

Ao considerar bens e serviços, os números são ainda maiores: entre 2000 e 2025 os EUA obtiveram um ganho de US$ 480 bilhões (R$ 2,4 trilhões) no relacionamento econômico com o Brasil, segundo dados do Bureau of Economic Analysis (BEA) dos Estados Unidos.

As estatísticas não evitaram, entretanto, que o governo norte-americano adotasse novas tarifas. O Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) aplicou alíquotas de 25% sobre determinados produtos brasileiros e também uma taxa de 12,5% citada como resposta a supostas falhas no combate ao trabalho escravo.

Questionado no Senado norte-americano sobre o desequilíbrio comercial, o indicado para a embaixada dos EUA em Brasília, Daniel Perez, reconheceu o superávit estadunidense, mas não justificou a sanção: “Essa tarifa foi implementada quando eu estava dormindo. Vou me informar melhor nas próximas semanas”. Já Jamieson Greer, chefe do USTR, afirmou ao Atlantic Council que, embora haja superávit na relação, “há muitas barreiras aos Estados Unidos, sejam tarifárias, regulatórias ou não tarifárias”.

Os fluxos comerciais entre Brasil e EUA variaram ao longo das últimas décadas. Entre 1985 e 1995, o Brasil chegou a registrar saldos positivos. Em 2005 voltou a atingir um pico de ganhos, impulsionado por minério de ferro, ouro, petróleo e café. A partir de 2008, ano da crise financeira nos EUA, o padrão mudou: desde então os Estados Unidos não voltaram a apresentar déficit no comércio de bens com o Brasil.

Os maiores saldos positivos americanos ocorreram em 2014 (US$ 16,5 bilhões) e 2021 (US$ 15,75 bilhões), em valores nominais. Em 2025, o déficit brasileiro em bens alcançou US$ 14,4 bilhões (R$ 73,4 bilhões), mais que o dobro do ano anterior. No setor de serviços, o superávit dos EUA favorece os americanos desde pelo menos 1999, com 2025 registrando US$ 27,4 bilhões (R$ 139 bilhões), o maior resultado em 26 anos.

Os dados parciais de 2026, referentes aos primeiros cinco meses, apontam para números ainda maiores. Em maio, o Brasil tornou-se o sexto maior gerador de superávit para os EUA. Ainda assim, o país segue como o segundo parceiro comercial mais taxado pela administração americana, com tarifa média de 18,2%, atrás somente da China.

Especialistas ouvidos destacam que as medidas tarifárias respondem a interesses que vão além do comércio direto: na lista de investigação do USTR constam temas como o sistema de pagamentos Pix, regulação de plataformas digitais e questões relacionadas à corrupção. Produtos como automóveis, autopeças e minerais estão no foco, mas o esforço maior recai sobre o etanol.

O USTR afirma que o Brasil suspendeu, em 2017, um tratamento tarifário especial ao etanol importado dos EUA; as compras americanas só voltaram a crescer em 2023. Indústrias dos EUA defendem a tarifa de 25% como forma de recuperar participação de mercado, e com outras taxas o etanol brasileiro pode ser tributado acima de 30% ao entrar nos EUA.

O governo brasileiro e especialistas também apontam que a lista de exceções do USTR inclui cerca de 2.100 itens — commodities e minerais cuja demanda interna americana não é suprida — e que, segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Rosa, apenas 18% das exportações brasileiras aos EUA seriam efetivamente afetadas pela nova medida.

Analistas observam ainda a interdependência entre as economias: cerca de um terço do capital estrangeiro no Brasil tem origem norte-americana, e aproximadamente 6 mil empresas americanas mantêm negócios no país. Assim, embora o país seja vulnerável em negociações, os especialistas apontam que ambos os lados terão custos com a escalada das restrições comerciais.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
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Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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