Relação entre câncer e doenças cardiovasculares em evidência
Com o envelhecimento da população brasileira, a incidência de câncer aumentou, e isso tem levado a maior número de pacientes oncológicos com complicações cardíacas. A área que estuda essa interação é a Cardio-oncologia, dedicada tanto aos efeitos do câncer sobre o coração quanto às possíveis influências das doenças cardiovasculares na evolução oncológica.
Outubro, mês de conscientização do câncer de mama, e novembro, dedicado ao câncer de próstata, reforçam a importância do tema, pois ambas as neoplasias estão entre as de maior ocorrência no Brasil.
Há uma relação bidirecional entre as doenças cardiológicas e oncológicas. Muitos fatores de risco para o câncer — tabagismo, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e de alimentos ultraprocessados, obesidade e estresse — também elevam o risco de doenças cardiovasculares.
Além disso, tratamentos oncológicos podem causar cardiotoxicidade, com efeitos que variam de reversíveis a permanentes e que podem surgir em diferentes prazos. Existem ainda tumores que se originam no próprio coração e neoplasias de órgãos vizinhos que, por proximidade, podem comprimir estruturas cardíacas.
Cientistas também investigam se doenças cardiovasculares pré-existentes, como a doença arterial coronariana — caracterizada pelo estreitamento das artérias coronárias por acúmulo de placas — podem estar relacionadas à ocorrência de câncer.
Atuação do INC em cuidado, ensino e pesquisa
O INC, órgão de referência do Ministério da Saúde para atenção cardiovascular de alta complexidade e instituição de ciência, tecnologia, ensino e inovação, tem ampliado sua atuação na Cardio-oncologia. O Instituto realiza avaliações cardiológicas de pacientes oncológicos, oferece tratamentos que vão até transplantes e reabilitação cardíaca, realiza cirurgias para tumores cardíacos e participa de procedimentos oncológicos que exigem circulação extracorpórea.
No ensino, em parceria com a Sociedade Brasileira de Cardiologia e o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o INC iniciou em 2021 o primeiro programa de pós-graduação em Cardio-oncologia no Brasil, que já formou três turmas. O Instituto também mantém uma Residência Médica pioneira na área, voltada para cardiologistas que buscam especialização.
Na pesquisa, o INC desenvolve estudos sobre Cardio-oncologia, realiza sessões clínicas conjuntas com o INCA para discussão de casos e participa de estudos multicêntricos nacionais e internacionais.
Protocolos atuais permitem avaliar o risco cardiovascular dos pacientes oncológicos e implementar estratégias de cardioproteção para prevenir ou reduzir problemas cardíacos decorrentes da doença ou do tratamento. Ainda assim, o INC reforça que a prevenção continua sendo a principal estratégia: medidas como parar de fumar, praticar atividade física, manter alimentação equilibrada, controlar o peso, evitar bebidas alcoólicas e gerir o estresse ajudam a reduzir o risco tanto de câncer quanto de doenças cardiovasculares.
Por Aurora Issa
Diretora do Instituto Nacional de Cardiologia


