Propostas de campanha e background internacional
Os principais candidatos à Presidência têm incluído em seus planos medidas para estimular a instalação de data centers no Brasil, como benefícios fiscais, produção nacional de componentes e apoio ao desenvolvimento de inteligência artificial local. A proposta ganha impulso após a sanção, em setembro, do Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata).
Enquanto o Brasil tenta atrair esses complexos, outros países, em especial os Estados Unidos, lidam com forte resistência pública: moradores têm organizado protestos contra a expansão de centros de dados, motivados por preocupações com consumo de energia, uso de água e emissões.
Diferenças entre Brasil e EUA
Os Estados Unidos concentram mais de 4.700 data centers, liderando o setor, segundo o site Data Center Map. O Brasil dispõe de 218 instalações e figura em 12º no ranking global. Com menos infraestrutura local, o país terminou 2025 com déficit de US$ 8 bilhões na balança comercial de Serviços de Computação e Informação, de acordo com a Brasscom.
Opiniões de especialistas
Daniel Cordeiro, professor da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador em computação sustentável, afirma que o Brasil precisa ampliar sua capacidade computacional, mas deve observar os problemas enfrentados em outros países para evitá-los aqui. Thais Ortega, coordenadora de pesquisa da consultoria Reglab, ressalta que há consenso entre os concorrentes sobre a atração de data centers, embora as estratégias variem.
Marina Garrote, diretora de operações do Reglab, aponta que o Redata — que reduz impostos para data centers mediante contrapartidas socioambientais — pode mitigar alguns desafios observados nos EUA, caso a expansão se apoie efetivamente em energia eólica e solar.
Rejeição nos EUA e encontro com executivos
Uma pesquisa Reuters/Ipsos mostrou que 64% da população nos EUA discorda que a construção acelerada de data centers será positiva para o país, e 57% se opõem à instalação desses complexos em seus bairros. Apesar da resistência, o presidente Donald Trump defendeu o avanço das instalações em encontro com executivos do setor na última terça-feira (29), no qual participaram líderes como Elon Musk, Mark Zuckerberg, Sundar Pichai e Jensen Huang. O encontro terminou com um compromisso das empresas para reforçar controles de segurança em modelos de IA.
Redata e requisitos para usufruir dos benefícios
O Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva zera impostos de importação de equipamentos destinados a data centers, mas impõe condições: uso exclusivo de energia renovável ou de baixo carbono, consumo máximo de 50ml de água por quilowatt-hora (kWh), destinação de 10% da capacidade para o mercado brasileiro e aplicação de 2% do valor dos equipamentos em pesquisa no país.
Especialistas alertam que alguns pontos do Redata ainda dependem de regulamentação, entre eles a definição de “energia de baixo carbono”, que pode abrir margem para o uso de gás natural.
Posições dos candidatos
No plano de governo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) propõe fomentar empresas brasileiras de IA e desenvolver versões nacionais de modelos de linguagem. Flávio Bolsonaro (PL) defende redução de impostos sobre energia para data centers e vinculação da demanda desses empreendimentos à exploração de minerais críticos. Ronaldo Caiado (PSD) integra data centers a uma cadeia de inovação conectada a semicondutores e modelos de linguagem. Renan Santos (Missão) quer transformar o Brasil no maior exportador de processamento de dados para IA e criar zonas com regimes tributários especiais. Romeu Zema (Novo) propõe um ambiente regulatório estável para dar segurança jurídica ao setor. Os demais candidatos não mencionam data centers em seus programas.
Perspectivas e cautelas
Pesquisadores e consultores dizem que as políticas de atração tendem a produzir efeitos apenas em alguns anos, e recomendam atenção desde já aos impactos sociais e ambientais. Thais Ortega observa que a regulamentação pendente do Redata influenciará decisões do próximo governo. Marina Garrote destaca que atributos como a rede de cabos submarinos e o mercado interno tornam o Brasil atrativo, e que o debate entre candidatos passou a ser sobre as regras de instalação, não sobre a conveniência de atraí-las.
Um exemplo do aumento de demanda é o pico de 865 Gbps registrado pelo data center RJO1, na Barra da Tijuca, durante a estreia do Brasil na Copa do Mundo.


