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China amplia produção interna e revisa importações; Brasil precisa se adaptar
O governo chinês definiu no 15º Plano Quinquenal (2026-2030) metas para elevar a produção doméstica de alimentos e diminuir a dependência de importações, sobretudo de produtos que hoje têm o Brasil como fornecedor importante, como soja, milho e carne. A estratégia reafirma o lema repetido pelo presidente Xi Jinping de que “a tigela de arroz do povo chinês tem que estar firme nas próprias mãos”, orientando políticas para aumentar a autossuficiência.
Entre os objetivos do plano estão elevar a produção anual de grãos para 725 milhões de toneladas até 2030 (ante pouco menos de 715 milhões no ano passado); aumentar a contribuição da ciência e tecnologia ao desenvolvimento agrícola de 64% para 67%; reduzir a participação do farelo de soja na ração de cerca de 14% para menos de 10% até 2030; alcançar ao menos 95% de autossuficiência em grãos básicos como arroz e trigo; e atingir 85% de autossuficiência em carne bovina e ovina e 70% em leite.
Especialistas consultados apontam que o movimento chinês requer adaptação do setor agropecuário brasileiro, mas não indica uma ruptura imediata nas relações comerciais. Theo Paul Santana, fundador da consultoria Destino China, afirma que, nos próximos anos, o foco será “vender a melhor tonelada”, com agregado de valor e diversificação de mercados. Larissa Wachholz, ex-assessora especial do Ministério da Agricultura e sócia da Vallya Associados, alerta para a capacidade chinesa de cumprir metas quando aloca tecnologia, educação e recursos financeiros.
A China importou quase 112 milhões de toneladas de soja no ano passado, mais de 70% originadas no Brasil; a produção chinesa responde por cerca de 20% da demanda interna. No entanto, Pequim tem investido em tecnologia e melhoramento genético, inclusive em sementes transgênicas, para elevar produtividade sem ampliar área plantada ou consumo de água.
Impactos práticos já são visíveis: a safra recorde chinesa reduziu as importações de milho de 8,4 milhões de toneladas em 2024 para menos de 4 milhões em 2025, e as exportações brasileiras de milho para a China caíram 20,8% em 2025, segundo o Ministério da Agricultura. No setor de carnes, a China aplicou cotas e sobretaxas — em janeiro foi estabelecida uma sobretaxa de 55% sobre importações de carne que ultrapassarem 1,1 milhão de toneladas — e, em julho, esse limite já havia sido atingido, segundo levantamento de Fernando Enrique Iglesias, do Safras & Mercado.
Mesmo com medidas de restrição temporárias, analistas ressaltam que a dependência chinesa por alimentos importados tem limites estruturais. A China produz cerca de 7,8 milhões de toneladas de carne bovina e consome entre 11 e 12 milhões, deixando um déficit que a OCDE projeta em torno de 4 milhões de toneladas por ano até 2032.
Para responder ao novo cenário, especialistas recomendam que o Brasil diversifique destinos — só em 2025 o país abriu mais de 200 novos mercados, cerca de 20 deles para carne bovina — e amplie a presença de empresas brasileiras na China para acompanhar mudanças regulatórias e tecnológicas. Há também oportunidades em produtos de maior valor agregado e em cadeias como combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e transporte marítimo.
Apesar das metas chinesas, investimentos chineses no Brasil sinalizam continuidade nas relações comerciais: a COFCO ampliou terminal no Porto de Santos, adquiriu locomotivas e vagões e assinou memorando para estudar uma ferrovia bioceânica ligando o Centro-Oeste ao Pacífico. Especialistas dizem que tais investimentos indicam que a importância do fornecedor brasileiro persiste, embora com exigências maiores.
Fonte: G1


