TRANSMISSÃO: Globo
Nas últimas décadas, a China deixou para trás um quadro marcado pela pobreza e se consolidou como referência mundial em obras de infraestrutura, com aeroportos, linhas de metrô e estações ferroviárias erguidas em ritmo acelerado e frequentemente replicadas em diferentes regiões do país.
Um exemplo emblemático é Xangai, onde um trem de levitação magnética — que não toca os trilhos — alcança velocidades superiores a 400 km/h e reduz o tempo de deslocamento do aeroporto ao centro da cidade para poucos minutos. A cidade funciona hoje como uma vitrine do modelo que combina três pilares: velocidade, escala e planejamento.
Especialistas identificam na continuidade política um fator decisivo para essa capacidade de implementar projetos de longo prazo sem grandes interrupções. Com o mesmo grupo no poder por décadas, o país consegue alinhar decisões estratégicas e manter a execução das obras sem as mudanças frequentes que ocorrem em democracias com alternância de governo.
A escala dos projetos também é apontada como determinante. Obras pensadas para atender milhões de pessoas e replicadas em várias cidades reduzem o custo unitário e permitem concluir empreendimentos complexos em poucos anos, muitas vezes com orçamentos inferiores aos de projetos semelhantes em países ocidentais.
Segundo especialistas, a combinação entre rapidez e escala impacta diretamente o custo final: a conclusão mais ágil diminui gastos relacionados a atrasos, revisões e mudanças de projeto, problemas comuns em grandes empreendimentos globalmente. Além disso, as autoridades chinesas têm utilizado intensivamente dados sobre deslocamento, consumo e comportamento para orientar decisões sobre investimentos e expansão urbana, tratando as cidades como sistemas dinâmicos em adaptação constante.
O modelo, porém, gera questionamentos. A centralização de decisões pode implicar realocação de moradores para abrir espaço a novas obras; em alguns casos, famílias são transferidas para áreas distantes e recebem compensações financeiras ou imóveis, processos que nem sempre ocorrem sem resistência. Especialistas consideram esse o dilema central: a capacidade de transformar rapidamente o espaço urbano com menor peso para decisões individuais.
Esse contraste com países que têm processos mais participativos — e, consequentemente, enfrentam maior lentidão, custos mais altos e entraves políticos — alimenta um debate sobre até que ponto é possível conciliar eficiência, custo e participação social no desenvolvimento das metrópoles. A infraestrutura passou a ser peça-chave na disputa global por influência e desenvolvimento no século 21.


