Chuvas fora do padrão registradas em julho nas principais regiões produtoras de café arábica do Brasil, incluindo o interior de São Paulo e o sul de Minas Gerais, ameaçam a qualidade dos grãos e podem repercutir nas exportações do produto. O alerta consta no boletim mais recente do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq) da Universidade de São Paulo, campus Piracicaba.
O Cepea ressalta que cerca de 30% da safra 2026/2027 ainda permanece no campo e ficou exposta às precipitações, o que aumenta o risco de perda de qualidade. As chuvas se intensificaram no fim de julho, período em que as operações de colheita se aproximam do término e a varrição — a coleta de frutos maduros do solo — é a atividade predominante.
Segundo Renato Garcia Ribeiro, responsável pela área de café no Cepea, o padrão climático registrado neste inverno foi atípico, com maior incidência de chuvas em um período tradicionalmente seco. Além de retardar a colheita, a umidade prejudica o processo de secagem dos grãos, tornando-os mais suscetíveis a defeitos que afetam a bebida.
O pesquisador destacou que a real dimensão dos prejuízos só poderá ser avaliada à medida que os lotes forem beneficiados, avaliados sensorialmente e comercializados. O impacto deverá ficar mais evidente nos meses seguintes, quando produtores fizerem a secagem e vendam os lotes — etapa que pode ocorrer daqui a dois ou três meses.
O cenário traz preocupação porque a safra de 2026/2027 era aguardada como um potencial recorde após anos de resultados reduzidos por eventos climáticos. A incerteza sobre qualidade pode influenciar os preços, já que cafés com melhor desempenho sensorial alcançam maior valorização no mercado e representam parcela importante das exportações brasileiras.
Na perspectiva sensorial, o barista e mestre de torra Júnior Damada, especialista em cafés de qualidade, explica que a exposição à umidade e a fermentações descontroladas favorece a atuação de micro-organismos e enzimas que degradam carboidratos. Isso pode produzir notas indesejadas na xícara, como sabores ácidos, fenólicos ou medicinais, além de sensações adstringentes que comprometem a bebida.
Damada observa ainda que grãos afetados pela umidade costumam exigir perfis de torra mais intensos — temperaturas mais altas e tempos maiores — para tentar reduzir compostos indesejáveis. Ele ressalta que cafés especiais dependem de ausência de defeitos e de complexidade sensorial; lotes que não atendem a esses critérios podem ser reclassificados como Gourmet, Superior ou Tradicional.
A densidade e o tamanho dos frutos também podem ser alterados por condições climáticas adversas, exigindo ajustes nas receitas de preparo em cafeterias e torrefações. Embora consumidores percebam diferenças sensoriais quando um lote foi prejudicado, o setor busca formas de minimizar impactos e aproveitar ao máximo a produção disponível.
Mais informações sobre a situação e avaliações de lotes devem surgir conforme os produtores avancem na secagem, beneficiamento e comercialização das cargas afetadas.


