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Premiações e rankings assumiram papel central na validação de restaurantes e passaram a movimentar negócios, turismo e políticas públicas. A recente concessão de três estrelas do Guia Michelin aos paulistanos Evvai e Tuju levou o tema às manchetes, à televisão aberta e a repercussões internacionais, colocando o Brasil entre países com restaurantes no mais alto patamar do guia.
O que está acontecendo
A presença crescente de placas, troféus e prêmios nas portas dos restaurantes substitui, hoje, antigos símbolos de prestígio como fotos de celebridades. Distinções e listas — do Guia Michelin aos 50 Best, The Best Chefs Awards, La Liste e outros — passaram a ser entendidos como ferramentas que aumentam a visibilidade e podem elevar o faturamento dos estabelecimentos.
Quem são os atores
Além dos chefs e proprietários, entram nesse ecossistema empresas que organizam rankings, patrocinadores privados e governos municipais, estaduais e nacionais que financiam eventos e cerimônias. Entre os nomes citados estão o chef Rafa Costa e Silva, do Lasai (Rio de Janeiro); o consultor Nidal Barake, da agência Gluttonomy; Érica Schecter, diretora de Relações Públicas da The World’s 50 Best; e Joanna Slusarczyk, co-criadora do The Best Chefs Awards.
Quando e onde
O debate ganhou força com a edição mais recente do Guia Michelin, publicada em 2026, e com eventos realizados no Rio de Janeiro em 2023 e 2024, quando a cidade sediou o Latin America’s 50 Best Restaurants e, no início de abril de 2026, recebeu a gala do Guia Michelin.
Como funcionam os prêmios e seu impacto
O Guia Michelin, criado em 1900 pela fabricante de pneus Michelin, adotou o sistema de estrelas em 1936: uma estrela indica “muito bom na sua categoria”, duas “excelente cozinha, que vale o desvio” e três “cozinha excepcional, que vale uma viagem especial”. Inspetores anônimos visitam mais de 40 países, incluindo o Brasil, pagam as contas pela empresa e fazem relatórios após as refeições.
Uma pesquisa das universidades do Estado da Carolina do Norte e do Kansas apontou que, em média, uma estrela pode aumentar o faturamento de um restaurante em 20%, enquanto três estrelas podem chegar a dobrar o faturamento em um ano.
A explosão de listas e o papel do turismo
Outros guias e listas também se estabeleceram, como o Gault&Millau e o ranking dos 50 Best, criado em 2002 e definido por 1.120 votantes anônimos. A World’s 50 Best ampliou sua atuação com rankings regionais para abarcar diferentes mercados.
O turismo gastronômico, estimado pela Organização Mundial do Turismo como responsável por cerca de 30% da receita turística em muitos destinos, e o dado de que mais de 80 bilhões de refeições são servidas anualmente a viajantes, explicam por que governos veem valor em patrocinar premiações. O setor turístico gera entre R$ 8 e R$ 10 trilhões por ano, segundo a matéria.
Financiamento público, controvérsias e desigualdades
Cidades e governos passaram a investir para sediar cerimônias, na expectativa de retorno em mídia e visitas. O Rio de Janeiro estimou investimentos de cerca de R$ 24 milhões para atrair eventos do setor. Casos anteriores mostram valores públicos relevantes: Melbourne desembolsou cerca de US$ 600 mil para receber a cerimônia do 50 Best em 2017, segundo dados divulgados então, e a edição de 2026 do Guia Michelin na Argentina teve custo estimado em US$ 400 mil, com financiamento reassumido por Buenos Aires e Mendoza após decisão do governo nacional de não bancar a edição.
Críticas surgem quando premiações se vinculam a governos ou a locais com histórico de violações de direitos humanos: reportagem do The New York Times discutiu a parceria do 50 Best com Abu Dhabi e apontou tensões entre imagem projetada e denúncias de organizações como a Human Rights Watch.
Conclusão informativa
Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que prêmios geram imprensa, turismo e negócios, mas também observam riscos relacionados à dependência de financiamentos públicos, à proliferação de listas e à potencial perda de diversidade e credibilidade quando as premiações ficam muito atreladas a interesses financeiros.


