Pesquisas recentes indicam que o uso excessivo de ferramentas de inteligência artificial, como ChatGPT, pode afetar áreas cognitivas importantes — criatividade, atenção, pensamento crítico e memória — e especialistas explicam formas práticas de usar essas ferramentas sem delegar totalmente o raciocínio.
O que apontam os estudos
Uma revisão de 57 estudos envolvendo mais de 411 mil adultos não encontrou evidências de uma “demência digital” generalizada; pelo contrário, o uso de tecnologia apareceu associado à redução do risco de comprometimento cognitivo, segundo um levantamento citado por especialistas. Ainda assim, pesquisas e experimentos mais recentes mostram efeitos preocupantes: usuários que dependem de sistemas automatizados para tarefas mentais tendem a perder prática em tipos específicos de raciocínio.
Há cerca de 20 anos surgiu a hipótese da “demência digital”, vinculada à deterioração da memória de curto prazo e outras funções cognitivas. Em paralelo, trabalhos sobre navegação por GPS mostram que pessoas que seguem rotas prontas formam mapas mentais menos precisos e têm piora na memória espacial ao longo do tempo. Um fenômeno similar, chamado “efeito Google”, descreve a perda de tendência a memorizar informações encontradas com facilidade em buscadores.
Por que a IA preocupa
Para Adam Greene, professor de neurociência na Universidade Georgetown, a IA representa uma maneira inédita de trocar processo por resultado: “É como ir à academia e deixar um robô levantar os pesos por você”, diz Greene, que alerta para a perda do “músculo criativo”. Jared Benge, professor e neuropsicólogo clínico da Escola de Medicina Dell da Universidade do Texas, ressalta que a tecnologia em si não é boa nem ruim — os efeitos dependem do modo de uso — e que, se bem empregada, a IA pode aliviar carga mental e trazer benefícios.
Riscos demonstrados
Um estudo recente mostrou que usuários frequentes de IA tiveram desempenho inferior em testes padronizados de pensamento crítico, possivelmente pela transferência de parte do raciocínio a sistemas automáticos. Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia batizaram esse fenômeno de “rendição cognitiva”. Trabalho da Microsoft Research indicou que o risco aumenta quando o usuário tem pouco conhecimento sobre o tema, pois fica mais difícil avaliar a qualidade da resposta gerada pela IA.
Em levantamento com 494 estudantes, usuários mais frequentes do ChatGPT relataram episódios maiores de perda de memória, e um estudo de 2024 ainda não publicado sugeriu que tentar resolver problemas antes de recorrer a um chatbot melhora o aprendizado obtido com a ferramenta.
Recomendações para evitar prejuízos
Especialistas consultados propõem práticas para reduzir os riscos sem abandonar a IA: não aceitar respostas prontas sem questionamento; formular uma hipótese própria antes de consultar a ferramenta; engajar-se ativamente com o conteúdo pesquisado — por exemplo, anotando à mão ou pedindo à IA que gere perguntas e flashcards — e deixar a página em branco por mais tempo para estimular ideias originais antes de pedir sugestões à máquina.
Também há alertas sobre a difusão de respostas geradas por IA: mesmo quem não usa diretamente chatbots já encontra material automatizado nas primeiras posições de buscas, enquanto empresas de tecnologia integram esses sistemas em celulares, tornando a tecnologia difícil de evitar.
Segundo Greene, a singularidade e a diversidade das ideias humanas continuarão sendo valorizadas e incentivar “pensar além dos robôs” é uma adaptação social necessária. Benge lembra que o cérebro humano sempre se adaptou às tecnologias, e que aprender a usar novas ferramentas sem terceirizar completamente o pensamento é parte desse processo.
Leia o texto original em G1: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2026/05/10/pense-fora-da-caixa-como-evitar-que-ia-enferruje-seu-cerebro.ghtml


