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domingo, julho 26, 2026

Crise global de fertilizantes e El Niño elevam risco de pressão nos preços de arroz, café, trigo e outras culturas

Exportações afetadas por conflitos e logística podem reduzir adubação e, somado ao forte El Niño previsto para este ano, especialistas alertam para risco de queda na produtividade de culturas como arroz, laranja, café e trigo, com possível repercussão nos preços no próximo ano.

O Brasil importa 85% dos fertilizantes que consome, e a combinação de alta de preços, restrições de transporte e decisões de produtores globais tem dificultado o abastecimento nacional, segundo levantamentos citados por analistas do setor.

O Oriente Médio ocupa a posição de quarto maior fornecedor do Brasil, atrás de Europa, Ásia e África. A região é crucial para o mercado de fertilizantes por conta do Estreito de Ormuz, cuja instabilidade desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã tem interrompido o fluxo marítimo. Cerca de um terço do comércio marítimo de fertilizantes passa por ali, de acordo com a Consultoria Agro do Itaú BBA. A região responde por mais de 40% das exportações globais de ureia, parcela relevante da amônia e cerca de metade do enxofre.

O fechamento temporário da rota fez os preços dispararem e complicou o acesso dos produtores. A dificuldade de transporte do petróleo também contribuiu para escassez de enxofre, insumo usado na produção de fertilizantes fosfatados — tipo do qual o Brasil importa 80% do consumo. Entre janeiro e maio, o país importou cerca de 45% menos desse insumo do que no mesmo período do ano passado. Em consequência, indústrias nacionais reduziram produção, como a Mosaic, uma das maiores do setor.

Para o pesquisador Felippe Serigati, da FGV Agro, a redução na adubação tende a provocar perda de produtividade, com impacto sobre oferta, qualidade e preços dos alimentos. Ele ressalta que a falta de fertilizantes se soma a outros choques no campo e que é difícil mensurar o peso de cada fator na eventual alta de preços. Os efeitos, afirma, devem se refletir mais claramente no ano que vem, pois atingirão a safra que será plantada neste semestre.

Bruno Fonseca, analista de insumos do Rabobank, destaca que o aumento no custo de produção atinge agricultores que já enfrentam endividamento e falta de acesso a crédito, o que pode levar à redução do uso de adubo. Segundo ele, o fósforo é o único nutriente que poderia ser eventualmente reduzido sem corte total imediato, por haver estoque no solo, mas esse estoque vem sendo consumido e a margem de redução é limitada.

Wharlhey Nunes, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, diz que grandes produtores tendem a sofrer menos, por contarem com tecnologia, estoques no solo e acesso a crédito, enquanto agricultores menores e de culturas de menor rentabilidade — citadas pelo setor como trigo, café, laranja e arroz — são mais propensos a reduzir aplicações. Serigati acrescenta que produtores distantes dos principais portos de entrada, como os de Rondônia, podem ter fertilizante fora do prazo para as plantas.

O cenário se complica com a perspectiva de um El Niño forte, que aquece o Pacífico e altera padrões climáticos, podendo provocar secas ou chuvas fora de época nas regiões produtoras. Especialistas afirmam que, se as chuvas não ocorrerem nos períodos adequados, os impactos da menor adubação poderão ser amplificados.

Dados do setor mostram que, até maio, o Brasil importou 1,5% a menos de fertilizantes do que no mesmo período de 2025, com queda de 27% apenas na ureia. Logo após o início do conflito, em fevereiro, o preço da ureia subiu 46% nas três primeiras semanas, segundo levantamento do Rabobank. Em junho houve alívio quando a rota foi aberta, mas novo fechamento voltou a pressionar os preços.

Em meio à incerteza, fornecedores importantes restringiram exportações para priorizar mercados internos. A China, responsável por 26% das compras brasileiras em 2025, e a Rússia, com 23%, foram citadas entre os países que limitaram remessas. Um relatório da Cogo Inteligência em Agronegócios, elaborado por Carlos Cogo, aponta que 45% dos fertilizantes importados pelo Brasil vêm de países com alta propensão à instabilidade política ou violência por fatores geopolíticos.

Especialistas do Itaú BBA indicam que investimentos em plantas de nitrogênio no Brasil existem, mas não oferecem solução imediata para a escassez causada por falta de insumos como o enxofre. Os analistas alertam que, embora parte do impacto possa ser mitigada por chuvas favoráveis e planejamento de produtores maiores, os riscos para culturas essenciais e para os preços no mercado seguem elevados.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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