Ferramentas de inteligência artificial capazes de gerar vídeos, áudios e imagens hiper-realistas têm aumentado a preocupação de autoridades eleitorais, pesquisadores e plataformas digitais. No Brasil, o tema ganhou atenção depois de ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) adiarem, em 13 de agosto de 2026, uma reunião destinada a definir punições pelo uso de IA em campanhas. O tribunal também avaliará se a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) cometeu irregularidade ao exibir um vídeo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) criado por IA durante a convenção que oficializou a candidatura em julho.
Pesquisadores que monitoram o uso de IA em campanhas destacam que, apesar da circulação crescente de deepfakes, não há evidências conclusivas de que essas ferramentas tenham alterado, por si só, o resultado de eleições. Sam Stockwell, do Centro de Tecnologias Emergentes e Segurança (CETaS) do Instituto Alan Turing, alerta que o perigo maior é a erosão contínua da confiança pública, a confusão sobre o que é real e o aumento da polarização política.
Seis exemplos recentes
Irlanda (outubro de 2025) — Três dias antes da eleição presidencial, uma montagem fez circular um vídeo em que a favorita, Catherine Connolly, aparentava desistir da corrida. O deepfake simulava uma transmissão da RTÉ News. A campanha de Connolly desmentiu e pediu a remoção do conteúdo; ela venceu com 63% dos votos.
Equador (fevereiro e abril de 2025) — Antes da eleição presidencial, diversos vídeos com logotipos falsos de emissoras como CNN, France 24 e Deutsche Welle atribuíram a candidatos escândalos e promessas falsas. Entre os alvos estiveram Daniel Noboa e Luisa González. Verificadores identificaram os conteúdos como fabricados, mas pesquisas indicaram impacto na percepção pública, especialmente em contextos com baixa alfabetização midiática. Daniel Noboa foi reeleito em 13 de abril de 2025 com cerca de 56% dos votos.
Alemanha (fevereiro de 2025) — Durante a campanha para eleições parlamentares, vídeos alarmistas atribuíram falsamente alertas de segurança, como ameaças terroristas e cédulas envenenadas. As postagens usaram imagens reais editadas com narração gerada por IA. Autoridades europeias rastrearam parte dessas ações a uma rede de desinformação russa.
Eslováquia (2023) — Dois dias antes da votação para o Parlamento, circulou um áudio falso que parecia ser do candidato Michal Šimečka discutindo fraude eleitoral. A peça viral apareceu no período de silêncio eleitoral, o que dificultou resposta imediata dos meios de comunicação. Šimečka terminou em segundo lugar, atrás de Robert Fico; estudos posteriores apontam que vários fatores além do deepfake puderam influenciar o resultado.
Romênia (2025) — Em meio à eleição presidencial, golpistas usaram deepfakes de candidatos para promover um esquema de investimento falso. Os vídeos prometiam transformar um aporte de 1.400 lei em uma renda passiva mensal de 9.000 lei, e direcionavam usuários a sites fraudulentos que imitavam páginas oficiais, aumentando o risco de fraudes financeiras.
Paquistão (2024) — Enquanto o ex-primeiro‑ministro Imran Khan estava preso, seu partido divulgou vídeos e áudios gerados por IA para afirmar supostas vitórias de candidatos apoiados por ele. O material contribuiu para clima de tensão, com protestos e acusações de fraude após atraso na divulgação dos resultados. Khan havia sido eleito em 2018, deposto em abril de 2022 e teve várias condenações e sentenças nos anos seguintes.
Os exemplos mostram diversidade de usos das tecnologias generativas: desde desinformação direta até golpes financeiros e estratégias para mobilizar ou confundir eleitores. Autoridades e pesquisadores ainda debatem medidas legais e técnicas para mitigar esses riscos sem soluções definitivas estabelecidas até o momento.


