O Distrito Federal enfrenta um quadro fiscal delicado, com projeção de déficit que pode chegar a R$ 4 bilhões até o final de 2026, segundo especialistas ouvidos. Para eles, ações de contenção de despesas ainda neste ano e reformas mais profundas no médio prazo são necessárias para evitar o agravamento das contas públicas.
O professor de economia do Ibmec Brasília, Renan Silva, afirma que a prioridade imediata é aplicar com rigor as medidas já anunciadas pelo governo. Entre essas medidas está um decreto recente que prevê a renegociação de contratos com redução de até 25% nas despesas. Silva também destaca a necessidade de controle mensal do orçamento, recomendando que cada órgão observe a liberação de apenas 1/12 dos recursos ao mês para minimizar desalinhamentos financeiros.
O economista César Bergo aponta três frentes fundamentais para o ajuste ainda em 2026: reduzir despesas administrativas — com enxugamento da máquina, revisão de gastos de pessoal e corte de despesas não essenciais; controlar contratos e terceirizações, preservando áreas prioritárias como saúde, educação e segurança; e renegociar contratos, suspender serviços não iniciados e postergar pagamentos quando possível.
Ajustes no médio prazo e limites orçamentários
Para o médio prazo, já a partir da próxima gestão do Palácio do Buriti, especialistas defendem reformas estruturais. Renan Silva sugere, entre outras ações, a consolidação do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) em debate, com foco na eficiência do gasto, maior participação popular na definição das prioridades e redução da dependência de créditos extraordinários.
O orçamento total previsto para 2026 é de R$ 74,4 bilhões, mas 64,6% desse montante está comprometido com despesas de pessoal, o que restringe a margem de manobra para investimentos e para reagir a crises. Sem reformas, alertam os analistas, o DF corre risco de atrasos em pagamentos a fornecedores e até insolvência, em função da baixa disponibilidade de caixa.
Relatórios e estudos citados pelos especialistas indicam que a fragilidade fiscal do DF remonta a 2015. Um levantamento do ObservaDF, ligado à Universidade de Brasília (UnB), aponta que o problema central é o fluxo de caixa: a maior parte da receita é consumida por despesas correntes, sem formação de reservas para investimentos ou para enfrentar choques.
O estudo também destaca que a crise envolvendo o Banco de Brasília (BRB) pode gerar um impacto fiscal bilionário e aumentar ainda mais a pressão sobre os cofres locais, com estimativas preliminares apontando para um rombo que pode alcançar até R$ 13 bilhões. Em 2024, o DF teve o quarto pior resultado do país em disponibilidade de caixa líquida, segundo o levantamento.
No início do ano, o governo publicou um decreto que estabeleceu limite mensal para gastos públicos. Na última semana, a governadora Celina Leão editou novo decreto determinando cortes em contratos, medidas que, segundo especialistas, podem mitigar a deterioração imediata, mas não substituem reformas estruturais necessárias para recuperar a saúde fiscal do Distrito Federal.
Fonte: G1


